Dida Sampaio/Estadão - 29/5/2019
Dida Sampaio/Estadão - 29/5/2019

Proximidade de Bolsonaro e aceno a evangélicos: governador do Rio se prepara para 2022

Pouco conhecido e de carreira discreta, ex-vice de Witzel quer construir imagem e arregimentar apoios para chapa de centro-direita; oposição discute frente ampla

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2021 | 05h00

RIO - Desde que o impeachment encerrou precocemente o mandato de Wilson Witzel (PSC), em abril, o novo governador do Rio, Cláudio Castro (PL), passou a preparar a sua tentativa de reeleição. Coincidentemente, um dos grandes ativos do ex-interino para 2022 surgiu no mesmo dia em que Witzel foi cassado. Foi o leilão de concessão da Cedae, a estatal de água do Estado, que rendeu aos cofres fluminenses R$ 22,7 bilhões. A bolada, em tese, dará ao mandatário  recursos e chance de deixar uma marca no Estado, tornar-se conhecido do eleitorado e tentar um novo mandato. 

O dinheiro chega no momento em que Castro começa a mexer as peças para construir o seu projeto eleitoral. Na quarta-feira, 26, o governador foi a Brasília se filiar ao PL - até então, continuava no mesmo PSC de Witzel. A sigla do ex-deputado Valdemar da Costa Neto, preso e condenado no Mensalão, passa a ter o Rio como único Estado sob seu comando. Com estrutura partidária consistente, a nova casa do governador controla hoje 22 prefeituras fluminenses, quase um quarto do total de 92 municípios do Rio. 

Embalados pelo dinheiro da Cedae, projetos de infraestrutura e eventos ligados a programas sociais devem marcar o próximo ano de Castro, ansioso por popularidade. Até 2018 um vereador discreto, tido como bom de bastidores, o cantor católico teve a vida transformada radicalmente após a vitória eleitoral ao lado de Witzel. A mudança tornou-se ainda mais profunda menos de dois anos depois. Foi quando aconteceu o afastamento do ex-governador por suspeitas de corrupção na Saúde durante a pandemia. 

Em seu caminho para tentar a  sonhada reeleição, Castro terá um desafio. Deverá tentar se equilibrar entre dois perfis: o de político bem articulado com diferentes setores e o de aliado Jair Bolsonaro. Um dos poucos governadores considerados próximos ao presidente, Castro passou a ser chamado de “negacionista” pela oposição nos últimos meses, depois de atitudes consideradas contrárias ao combate à covid. Em março, promoveu uma festa de aniversário na Região Serrana que gerou aglomeração e críticas.

O governador não pode e nem quer se afastar do presidente, do ponto de vista eleitoral ou administrativo. O Rio depende da União para diversos assuntos econômicos. Na quarta-feira, 26, o secretário estadual de Fazenda, Nelson Rocha, entregou ao governo federal o pedido de adesão ao novo Regime de Recuperação Fiscal.

A boa relação com Bolsonaro, contudo, atrela sua imagem a um presidente com rejeição alta e visto como negligente no combate à pandemia - e agora questionado nas ruas por manifestações massivas. Isso certamente será explorado por adversários, durante a campanha. Para opositores, o mandatário é tido como refém do clã presidencial. 

Castro e aliados buscam criar roupagem de centro-direita para uma composição eleitoral. Além do PL, entrariam na aliança partidos como DEM, Republicanos, Solidariedade, PP e PSL.

O DEM, aliás, era um dos destinos cotados pelo governador antes de escolher a nova casa. A legenda passa por reformulação após o racha entre seu presidente, ACM Neto, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia. O deputado pelo Rio  deve ir para o PSD. O movimento será idêntico ao do prefeito carioca, Eduardo Paes. Aliado de Maia, ele se filiou há poucos dias ao partido de Gilberto Kassab.

O planejamento desta nova fase do governo de Castro também deve levar de volta à vida pública nomes conhecidos da “velha política” fluminense. Alguns ocupavam suplências depois de maus resultados eleitorais em 2018. Na Assembleia Legislativa, o pai do vereador preso Dr. Jairinho, Coronel Jairo (SD), é o suplente de Rodrigo Bacellar (SD), que assumirá a Secretaria de Governo. Coronel Jairo chegou a ser preso logo depois daquela eleição, na Operação Furna da Onça, em 2018, sob suspeita de receber propina para aprovar projetos na Casa. Seu filho está na cadeia acusado de matar por tortura o enteado Henry, de 4 anos. 

Já em Brasília, quem pode se beneficiar de possíveis indicações para o secretariado é o filho do recém-falecido Jorge Picciani, Leonardo Picciani (MDB), além de Júlio Lopes (PP), outro velho conhecido da política carioca. Eles ocupariam na Câmara as vagas de Sóstenes Cavalcante (DEM) e Vinicius Farah (MDB), também cotados para o governo. Nomear o demista seria, inclusive, uma forma de Castro acenar ao eleitorado evangélico. O governador é ligado à Igreja Católica.

Oposições articulam chapa unificada

As oposições ao atual governo e a Bolsonaro têm conversado a fim de  tentar compor uma chapa unificada no ano que vem. Há, basicamente, um grupo mais de esquerda, ligado ao deputado Marcelo Freixo (PSOL, mas com possível ida para o PSB), e outro que tem como principal liderança o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. O advogado é quem o prefeito Eduardo Paes (PSD) e seus aliados, como Maia, têm colocado na posição de pré-candidato. 

A eleição do Rio, berço do bolsonarismo, é considerada peça-chave para a oposição Isso ocorre tanto pelas diferentes crises que assolam o Estado há anos quanto pela oportunidade de derrotar um aliado do presidente Jair Bolsonaro no seu reduto. Líder das pesquisas de intenção de voto para a Presidência, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é apoiador da ideia de frente ampla no Estado. Estará na capital carioca nos dias 11 e 12 deste mês. As agendas na cidade ainda estão sendo planejadas.

Tudo o que sabemos sobre:
Jair Bolsonaro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.