Protógenes violou senhas da PF para arapongas fazerem grampo

Agentes da Abin usaram chaves de acesso ao Guardião que eram restritas a policiais especialmente designados

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

11 de novembro de 2008 | 00h00

A Polícia Federal descobriu que o Sistema Guardião foi violado durante a Operação Satiagraha. Arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), convocados para integrar a equipe de investigação sobre o banqueiro Daniel Dantas, tiveram acesso à máquina de grampos da PF e a eles foram cedidas senhas pessoais e intransferíveis que só poderiam ser usadas por agentes federais legalmente habilitados.A revelação sobre o ingresso na área proibida da PF foi feita por um agente da Abin, Jerônimo Jorge da Silva Araújo. Em depoimento no Inquérito 24.447/08, que investiga o vazamento de dados da Satiagraha, Araújo disse ter sido "introduzido clandestinamente" nas instalações da Superintendência da PF em São Paulo, em área de acesso controlado do Serviço de Inteligência, onde "trabalhou livremente e passou a ouvir e a degravar áudios interceptados pelo sistema, no bojo da operação em questão".O relato do agente da Abin chocou a cúpula da PF, que tem o Guardião como sua mais preciosa jóia no combate ao crime organizado. É seleto o quadro de federais autorizados a freqüentar a meca da escuta telefônica.A Satiagraha foi idealizada pelo delegado Protógenes Queiroz. A PF está convencida de que foi ele, na condição de comandante da operação, quem autorizou o uso de senhas por agentes da Abin e planeja indiciá-lo criminalmente por violação ao artigo 10 da Lei 9.296/96 - a Lei do Grampo, que pune com até 4 anos de reclusão servidor que afronta o segredo de Justiça. Protógenes disse não temer seu futuro na instituição. "Não nasci delegado."Borba e Chauvet são as senhas utilizadas por arapongas da Abin. Elas são de uso regular dos agentes da PF Marlon Brás Cruz Borba e Gilberto Augusto Leon Chauvet. O inquérito revela que ambos não estiveram em missão na cidade de São Paulo, entre março e maio, mas suas senhas foram usadas intensamente nesse período. "Portanto, não foram eles (Borba e Chauvet) que fizeram os acessos ao Guardião", assinala documento confidencial da PF."As conversações versavam sobre operações bancárias, eles falavam de acertos e transações bancárias, às vezes utilizavam algumas expressões em inglês, e nem sempre eles falavam os nomes, pois certamente já se conheciam", declarou o agente da Abin que se apoderou da senha Borba. "Eram citados nomes, Patrícia, Verônica, Naji Nahas e Daniel Dantas."Na primeira etapa da investigação, ele ficou "uns 18 dias nesse trabalho". Depois, mais 15 dias na PF, até que foi deslocado para o São Paulo Inn Hotel, onde Protógenes montou a base secreta da Satiagraha. "Na área reservada, controlada pelo policial Walter (escrivão Walter Guerra, braço direito de Protógenes), recebi a determinação de degravar áudios na íntegra", disse Araújo. Ele contou que "ouviu áudios do investigado Celso Pitta". Fez duas degravações, "a de Pitta, mais extensa, e de outra pessoa, cujo nome não se recorda".Gilberto Caldeira Landim, também da Abin, confirmou o acesso a dados sigilosos e aos grampos. Revelou que o ingresso na área restrita da PF "foi possibilitado diretamente pelos policiais Eduardo e Roberto, com resultados apresentados a Walter". Ele foi orientado a gravar conversas "sobre tráfico de influência, lavagem de dinheiro, transações com doleiros e a compra da Brasil Telecom". "Tratava-se de trabalho muito difícil, tinha muita conversa em código." Realizava três degravações diariamente.O delegado Amaro Ferreira, que preside o inquérito, recusa-se a falar sobre o caso. O juiz Ali Mazloum, da 7.ª Vara Federal, decretou o sigilo no inquérito e também se nega terminantemente a falar sobre os autos.

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