Protógenes citou presidente, diz araponga

Agente da Abin diz que delegado o convenceu a atuar no caso alegando preocupação de Lula

Fausto Macedo, O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2008 | 10h41

Páginas do inquérito 24447/08 contam segredos da controversa aliança dos arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Polícia Federal na Operação Satiagraha. Um dessas confidências cita suposto interesse do presidente Lula nas investigações que apontam para o banqueiro Daniel Dantas em esquema de lavagem de capitais, evasão de divisas e fraudes financeiras. Em depoimento à PF, Lúcio Fábio Godoy de Sá, oficial da Abin, afirmou que o delegado Protógenes Queiroz, mentor da Satiagraha, contou-lhe que o presidente "cobrava o andamento desta investigação". "Queiroz chamou o depoente (Lúcio Sá)e lhe explicou que tratava-se de investigação que envolvia espionagem internacional e que era a razão da Abin estar participando", registra o inquérito da PF que investiga vazamento da Satiagraha. "Que a ação abrangia a empresa Kroll e a investigação era de interesse do presidente da República que cobrava o andamento desta investigação porque o próprio filho do presidente teria sido cooptado por essa organização criminosa que também havia se infiltrado nos altos escalões da administração pública." Os relatos colhidos pelo inquérito 24447/08 esmiúçam o dia-a-dia dos oficiais da Abin, revelam detalhes do poder e autonomia que eles desfrutavam em repartições da PF e expõem as tarefas que executavam - ao abrigo e sob ordens do delegado Protógenes, que está na mira da própria PF. É ele o principal alvo do inquérito. Na última quarta-feira, a PF vasculhou 5 endereços de Protógenes: dois imóveis no Rio - Jardim Botânico e Meyer - um na Praia das Astúrias, Guarujá (SP), um apartamento em Brasília, e o apartamento 2508 do Shelton Hotel, no centro de São Paulo, onde foram recolhidos 7 celulares do delegado. A investigação mostra, na avaliação da PF, situações muito graves porque traz à tona a ação clandestina do efetivo da Abin - os agentes tiveram acesso a dados confidenciais, inclusive conteúdos de grampos, e teriam violado até o Sistema Guardião, a máquina de interceptações dos federais. Vinte e oito depoimentos escancaram os bastidores da polêmica missão federal e reforçam suspeitas sobre a parceria - 16 agentes e oficiais da Abin deram sua versão e eles todos atribuem a Protógenes o comando dos trabalhos. Certa de que agentes da Abin praticaram crimes, desde realização de grampos até filmagens clandestinas, a PF pediu autorização para as buscas. O procurador da República Roberto Diana repudiou o pedido, mas o juiz Ali Mazloum, da 7ª Vara Criminal Federal, autorizou a varredura para apreensão de objetos e para evitar o sumiço de vestígios. Antes de dar seu consentimento, Mazloum cercou-se de cuidados. Ele convocou o delegado Amaro Vieira Ferreira, da Corregedoria-Geral da PF e responsável pela investigação. O magistrado ficou impressionado com o conteúdo do inquérito, para ele resultado de intensa investigação. Ao dar seu aval para a blitz nos endereços dos investigados, Mazloum alertou a PF que o objetivo da medida é o de colher dados necessários à prova das infrações ou à defesa dos investigados. Para ele, interessa à Justiça criminal apenas a verdade real. Advertência O inquérito mostra que a invasão da Abin foi reprimida pelo diretor de Inteligência Policial da PF, Daniel Lorenz de Azevedo, veterano delegado com especialização em combate ao terrorismo. No início de março, época em que a equipe de Protógenes estava instalada na sede da PF em Brasília, Lorenz encontrou um analista da Abin, Márcio Seltz, em uma sala de reuniões. O delegado já conhecia Seltz de encontros em fóruns internacionais sobre terrorismo. Ele perguntou ao analista o que estava fazendo ali. "Estou auxiliando, a pedido do dr. Queiroz, no processo de análise de dados e informações da Satiagraha", respondeu o homem da Abin. Lorenz chamou Protógenes em seu gabinete e o advertiu, desautorizando a participação do analista na operação. Ele ordenou ao chefe da Satiagraha que não permitisse o acesso de Seltz, ou qualquer pessoa da Abin, na investigação. Agora já se sabe que 72 agentes da Inteligência participaram diretamente da Satiagraha. Seltz declarou que Protógenes, inicialmente, "lhe passou alguma coisa antiga, um material de fontes abertas, que dizia respeito à Telecom Itália, fundos de pensão, dizendo para tomar conhecimento daquilo". Ele contou que seus colegas, "Lúcio, Nagib Batista e Luiz, todos da área operacional, praticamente faziam o mesmo serviço, uma triagem de e-mails". E-mails Luiz Eduardo Melo, também oficial de Inteligência, confirmou sua participação e de outros da Abin na operação e o conhecimento em detalhes de dados sigilosos. "Eu já tinha conhecimento de quais seriam os assuntos importantes, operações de ordem financeira, e-mails em inglês envolvendo o Banco Opportunity e pessoas envolvidas, Dório Ferman, Verônica Dantas..." Karina Murakami Souza, delegada federal que atuou na equipe de Protógenes, indicou a clandestinidade da atuação de servidores da Abin. Segundo ela, no escritório da Satiagraha em São Paulo "comparecia um pessoal estranho, que não era da PF, e eles se reportavam ao dr. Queiroz". Ela disse que uma parte do levantamento de campo foi feita pelo pessoal da Abin. Na ausência de Protógenes, eles se reportavam a Walter Guerra, escrivão da PF. A delegada contou que, em Brasília, "participava dos trabalhos, na análise de HD, o agente Ambrósio, que seria aposentado da Abin".

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