Protestou, mas não sabe por quê

O principal público cooptado por Sandra Ribeiro para as manifestações pagas eram seus próprios vizinhos. Adolescentes, desempregados, donas de casa, todos interessados em receber R$ 40 para passar o dia no Plano Piloto. Deisiele Zacarias, de 15 anos, participou duas vezes. Agora, porém, não vai mais. "Estou estudando o dia todo, não tenho mais tempo", conta. Deisiele não lembra nem mesmo o motivo pelo qual foi protestar. "Uma delas acho que era uma coisa de bingos, mas não lembro direito", disse. Ela explica que a preferência de Sandra era para as pessoas "mais necessitadas", por isso, garotas como ela só iam quando "sobrava vaga". Sara Ribeiro, prima de Sandra, também costumava engrossar os protestos no Distrito Federal, com a mãe e uma irmã, mas agora está trabalhando e deixou a vida de manifestante. Ela conta que, às vezes, iam só dois ônibus, mas chegou a participar de uma manifestação em que saíram 15 veículos de Planaltina. Sandra perdeu dois outros vizinhos para o trabalho fixo. "Minha filha de 32 anos e meu filho de 28 sempre iam. Agora estão empregados e não podem mais. Perde o dia todo, né?", explica Orenita da Silva. Segundo os relatos, o pagamento era sempre à vista, distribuído dentro do ônibus, em notas de R$ 20 grampeadas. Em manifestações que durassem o dia inteiro, o preço era o mesmo, mas os manifestantes recebiam almoço. Dizem ser um bom negócio onde o dinheiro é curto.

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