Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Oposição rachada esvazia atos a favor do impeachment de Bolsonaro pelo País

Manifestações convocadas por grupos de centro-direita como MBL, Vem Pra Rua e Livres contaram com público reduzido, em comparação às manifestações bolsonaristas de 7 de Setembro, e presença pequena de ativistas da esquerda, com destaque para o PDT

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 13h12
Atualizado 13 de setembro de 2021 | 12h17

Convocados por grupos de centro-direita, manifestantes foram às ruas neste domingo, em 15 capitais, pedir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Mas a divisão da oposição ao governo acabou esvaziando os atos organizados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua (VPR) e Livres.

O número de pessoas que aderiu aos protestos foi bem menor do que o contabilizado nas manifestações de 7 de Setembro, quando o presidente ameaçou o Supremo Tribunal Federal e pregou desobediência a decisões judiciais. 

O maior ato foi o da Avenida Paulista, em São Paulo. De acordo com estimativa da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, cerca de 6 mil pessoas compareceram à manifestação, ante 125 mil estimadas pela Polícia Militar no mesmo local no dia 7.

Foi o primeiro protesto pelo impeachment de Bolsonaro encabeçado por esses movimentos, que ganharam projeção durante a campanha pelo impedimento de Dilma Rousseff (PT) em 2016. A adesão foi além da direita, alcançou presidenciáveis do centro democrático em São Paulo, o PDT e centrais sindicais ligadas à esquerda. Principal partido de oposição, o PT ficou de fora, inspirado pelo mote original do protesto: “nem Lula, nem Bolsonaro” .

Os movimentos pretendiam evitar o uso das manifestações contra Bolsonaro como palanque político, mas presidenciáveis participaram dos atos e discursaram em carro de som na Avenida Paulista. A tônica dos discursos dos pré-candidatos foi a união de grupos diversos em torno do afastamento de Bolsonaro.

Frente democrática 

O governador de São Paulo, João Doria, pré-candidato nas prévias tucanas, defendeu a criação de uma frente democrática que incluísse também o PT. “Todo começo tem dificuldades. Isto aqui é um começo”, afirmou Doria. Questionado se subiria no mesmo palanque que os petistas, o governador respondeu: “Não tenho dúvida disso. É uma evolução. Não é algo feito com ansiedade”. 

Antes do tucano, o pré-candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes, também pregou a união de movimentos divergentes. “Nós somos diferentes, temos caminhadas diferentes, temos olhar sobre o futuro do Brasil diferentes”, disse. “Mas o que nos reúne é o que deve unir toda sociedade civicamente sadia, é a ameaça da morte da democracia e do poder da nação brasileira. Assumo qualquer risco e qualquer contradição para defender o povo brasileiro”, afirmou o pedetista.

A senadora Simone Tebet (MDB-MS), apontada como presidenciável, afirmou que esquerda e direita “estarão no mesmo palanque”: “Temos aqui o centro e a direita se fazendo presentes em praça pública. Teremos a manifestação da esquerda no próximo mês (mais informações na página A6). Não tenho dúvida que, em novembro, estaremos todos no mesmo palanque, sem nomes e sem extremismos”.

Em São Paulo, também participaram dos atos outros pré-candidatos para 2022: o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM)e o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE). Em Porto Alegre, as manifestações tiveram a presença do governador Eduardo Leite (PSDB), que disputa com Doria a indicação do partido à corrida presidencial.

A deputada estadual Isa Penna foi única representante do PSOL no protesto contra Bolsonaro. Ela disse que não se aproximou do MBL, mas se juntou à pauta contra o atual presidente. “Às vezes é preciso se unir a adversários para derrubar um inimigo em comum”, afirmou.

Lula

No Rio de Janeiro, com dois carros de som – um do Vem Pra Rua e outro do MBL –, a manifestação não encheu, mas conseguiu viver uma divisão. Enquanto o Vem Pra Rua se concentrou em martelar o bordão que rejeita tanto o atual presidente quanto Lula, o MBL “esqueceu” o petista, em uma tentativa de atrair a esquerda para a defesa do impeachment.

Em Brasília, o protesto ocorreu na Esplanada dos Ministérios. O ato não teve um grande número de participantes, mas conseguiu reunir algumas centenas de pessoas próximo ao Congresso Nacional. 

MBL, VPR e Livres não divulgaram estimativas nacionais de público. Nas redes sociais, parlamentares governistas e ministros ironizaram o baixo número de manifestantes que foram às ruas no primeiro ato em resposta aos eventos de 7 Setembro.

Manifestações pelo Brasil

Belo Horizonte e Rio reuniram os maiores contingentes no período da manhã. Ainda assim, a adesão foi baixa. Na capital fluminense, o grupo começou a se concentrar em Copacabana às 10h. No carro do VPR, um cartaz mostrava o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula (PT) atrás das grades, rompendo a trégua declarada para atrair representantes da esquerda. Organizadores haviam deixado de lado o mote "Nem Bolsonaro, nem Lula" e decidido focar somente no impeachment do presidente da República.

Os poucos manifestantes de partidos de esquerda presentes na manifestação contra o presidente Bolsonaro no Rio se colocaram ao lado do carro do MBL. Bandeiras do movimento da centro-direita e dos partidos foram balançadas lado a lado na orla. Mais perto do carro do VPR, uma faixa grande reforçava a rejeição ao presidente e ao petista.

Candidato à Presidência pelo Novo em 2018, o empresário João Amoêdo também esteve no ato do Rio. Questionado pelo Estadão sobre o embate entre os dois carros de som, que vinham defendendo causas diferentes, ele se colocou ao lado do MBL, que "esqueceu" Lula e se concentrou na bandeira do impeachment.

"A pauta dos brasileiros não é eleição, ‘terceira via’, nada disso", disse. "A gente tem de entender que qualquer construção de um Brasil melhor passa pela saída do Bolsonaro. Se a gente não tiver prioridade total nisso, vai ter ainda mais dificuldade nessa tarefa, que já não é fácil."

Em Belo Horizonte, o ato na Praça da Liberdade ganhou força por volta das 11h. Imagens compartilhadas pelo MBL nas redes sociais mostram o público vestido majoritariamente de branco, como pedido pelos organizadores, no intuito de evitar a contraposição entre o vermelho associado à esquerda e o verde e amarelo das manifestações bolsonaristas. 

"Não estou nem aí para a participação da esquerda. O nosso movimento é de direita", afirmou o piloto de avião Cláudio Costa Pereira, um dos coordenadores do ato na capital mineira. O estudante de direito César Peret, também parte da coordenação, disse que a participação dos movimentos e partidos de esquerda ficou “no ar”, mas os grupos não apareceram.

Em Salvador, partidários do PDT, Novo e do Livres se uniram no protesto contra o presidente Jair Bolsonaro no Farol da Barra. Fora do foco planejado para as manifestações pelo Brasil, apenas algumas dezenas de pessoas compareceram. Apesar do esforço pela união suprapartidária, no microfone aberto, quando militantes do Novo falavam, pedetistas saíam, e vice-versa.

Em São Luís, manifestantes se reuniram na Praça do Pescador a partir das 9h para pedir o impeachment do presidente Bolsonaro. Com faixas e cartazes “Fora, Bolsonaro”, o movimento uniu o MBL a representantes do Novo, PDT, Cidadania e Rede, além de integrantes de igrejas evangélicas, em críticas ao presidente.

Na capital do Espírito Santo, Vitória, a manifestação começou às 9h30, na Praça do Papa. Após a concentração, os manifestantes saíram em carreata pela Terceira Ponte até chegar à Prainha, em Vila Velha. Segundo a PM, cerca de 80 veículos participaram do ato, que foi encerrado sem ocorrências.

Diferentemente do que foi decidido em alguns Estados, no Espírito Santo a manifestação manteve o lema "nem Lula, nem Bolsonaro". Por isso, partidos como o PT e o PSOL não aderiram aos atos. O PSB e o PDT convocaram a militância para os protestos, mas não houve grande adesão.  "Querem dizer que só existe Lula e Bolsonaro, mas não é verdade. Temos tempo hábil de buscar um outro nome que respeite a democracia, que respeite as instituições e que, fundamentalmente, tenha condições de fazer a gestão do Brasil", afirmou Gustavo Peixoto, um dos líderes do movimento Vem Pra Rua ES.

Em Manaus, a manifestação contra o governo federal reuniu cerca de 100 pessoas na Praça São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas, no Centro Comercial da capital amazonense. O ato contou com a presença de representantes de partidos de esquerda como o PCdoB. Um dos participantes foi Yan Ivanovich, que disse que o ato deste domingo inaugura um ciclo de manifestações. “O ato de hoje inaugura um ciclo em que amplos setores da sociedade já começam a mobilizar com maior tempo para 2 de outubro, em que estarão todos juntos pelo impeachment do Bolsonaro”, afirmou.

A manifestação liderada pelo MBL em Porto Alegre não conseguiu reunir um público próximo aos protestos capitaneados por partidos de esquerda ao longo do ano, nem na comparação com as manifestações favoráveis ao presidente do 7 de Setembro. Reunidos na Avenida Goehte, próximo ao Parque Moinhos de Vento, o Parcão, pouco mais de uma centena de pessoas se concentraram a partir das 15h em um espaço de aproximadamente 10 metros, onde estavam estacionados os caminhões de som que bloquearam uma faixa da avenida.

Sem a adesão dos maiores partidos de esquerda e movimentos sociais do campo, as representações políticas ficaram restritas ao PDT e o Novo, únicos partidos que tiveram integrantes com bandeiras na manifestação. O governador Eduardo Leite (PSDB), que também pleiteia uma pré-candidatura ao Planalto, circulou pelo protesto e falou com os manifestantes, defendendo a democracia e a diversidade. 

Cerca de três mil pessoas, segundo a coordenação do ato, se reuniram na Boca Maldita, em Curitiba, para protestar contra o governo federal e pedir o impeachment do presidente Bolsonaro. A manifestação teve em comum discursos por uma terceira via para as eleições de 2022 e reuniu representantes do MBL, MDB, PC do B, Novo, Rede, PDT e PSDB, além de outros movimentos de juventude.

Em Fortaleza, o ato contou também com a participação de partidos de esquerda, como o PDT e o PCdoB. Vestindo camisas brancas, os manifestantes ocuparam a praça Portugal, principal ponto de manifestações na capital cearense, tanto pela direita, quanto pela esquerda. 

Já em Goiânia, o ato contra o governo Bolsonaro reuniu manifestantes em frente à sede da Polícia Federal por volta das 15h. O protesto foi organizado pelos movimentos Vem Pra Rua, MBL, Livres, União da Juventude Livre e integrante do partido Novo, e o mote principal era “Nem Lula, nem Bolsonaro”. A cor predominante também era o branco. 

No início da caminhada, às 16h, os manifestantes cantaram o Hino Nacional, fizeram uma oração e um minuto de silêncio pelas vítimas da covid-19. O trajeto da caminhada foi de cerca de 500 metros, e houve aglomeração, tanto na concentração como na caminhada, mas a maioria dos manifestantes usava máscara. A manifestação foi dispersada pouco antes das 17h. Não foi divulgado o número de participantes.

A manifestação convocada para Natal neste domingo foi abreviada com a chuva inesperada que caiu na cidade no meio da tarde. O grupo que defendeu publicamente o impedimento do presidente se reuniu em um dos cruzamentos mais movimentados da zona Leste da capital, entre as Avenidas Nevaldo Rocha e Hermes da Fonseca. O PT usou as redes sociais para orientar a militância a não participar dos atos deste domingo.

Em João Pessoa, o protesto reuniu cerca de 50 pessoas. O grupo ergueu uma grande bandeira do Brasil sob os gritos de "Fora Bolsonaro" e "Fora Lula". Do alto de um carro de som, no Largo da Gameleira, no bairro de Tambaú, jovens gritavam palavras de ordem e afirmavam que uma terceira via para a disputa das eleições de 2022 é possível.

Pró-Bolsonaro

Também para esta manhã de domingo estava marcada uma manifestação pró-governo na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O ato, marcado para começar às 9h, teve a adesão de poucos manifestantes. Para garantir a segurança, diversas vias próximas ao local foram bloqueadas pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), que esperava movimentação até às 14h de apoiadores do presidente Bolsonaro.

O cenário na Esplanada nesta manhã era bem diferente da última terça-feira, 7, Dia da Independência. No início deste semana, apoiadores do presidente se reuniram na Esplanada do Ministério para manifestações com pautas antidemocráticas, com críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF). O próprio presidente participou dos atos em Brasília e na Avenida Paulista, em São Paulo.

Já o ato contrário ao governo, convocado pelo MBL e movimentos da centro-direita, está marcado para acontecer às 15h, também na Esplanada. Assim como pela manhã, a Polícia Militar do Distrito Federal estará no local para acompanhar a movimentação. As vias só serão liberadas quando os manifestantes se dispersarem. "A área central de Brasília permanece sob monitoramento da SSP e forças de segurança locais, por meio do Centro Integrado de Operações de Brasília (Ciob) e equipes em campo. O objetivo é garantir a segurança de todos que circulam na região. O policiamento na região será reforçado", informou a SSP-DF em nota. / BRUNO RIBEIRO, PEDRO VENCESLAU, CAIO SARTORI, LEVY TELES, MARLLA SABINO, DIDA SAMPAIO E WESLLEY GALZO, DO ESTADÃO; CARLOS EDUARDO CHEREM, DAVI MAX, MATHEUS BRUM, ALISSON CASTRO, EDUARDO AMARAL, JÚLIO CESAR LIMA, LORRÂNE MENDONÇA, ANDRÉIA BAHIA, RICARDO ARAÚJO E JANAÍNA ARAÚJO, ESPECIAIS PARA O ESTADÃO

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