Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Proposta de corrente majoritária do PT esbarra no discurso ‘Lula Livre’

Insistência na defesa da liberdade do ex-presidente tem sido obstáculo para unificar campo da centro-esquerda, como prega a CNB, vencedora das eleições internas do partido

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2019 | 09h00

Com um discurso em defesa de uma grande frente democrática, inclusive com setores do centro, para enfrentar o governo Jair Bolsonaro, a corrente majoritária do PT Construindo um Novo Brasil (CNB) venceu o Processo de Eleições Diretas (PED) realizado no último domingo.

Com 87% dos votos apurados até a noite desta quarta-feira, 11, a CNB tinha 52% dos votos contra 13% da segunda colocada, a chapa composta pelas correntes Democracia Socialista (DS) e Militância Socialista.

O discurso de unidade defendido pela CNB, no entanto, esbarra na centralidade que a libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou durante o próprio PED. Cerca de três mil das aproximadamente cinco mil chapas inscritas em todo o Brasil tinham “Lula Livre” no nome, inclusive quatro das nove nacionais.

A tese vencedora “Lula livre para mudar o Brasil” usa as mensagens entre integrantes da Lava Jato reveladas pelo The Intercept Brasil para argumentar que a Operação tinha como objetivo criminalizar o PT, derrubar a ex-presidente Dilma Rousseff e tirar Lula do jogo eleitoral.

“Já não se trata de provar mais nada. A condenação fraudulenta de Lula tornou-se evidente. Cabe aos tribunais superiores reconhecerem a sua inocência e libertá-lo, resgatando a credibilidade da justiça brasileira e o estado de direito”, diz a tese.

Segundo dirigentes petistas, o PED deixou claro que a defesa do “Lula Livre” é unanimidade hoje no partido. “É um ponto de unidade no PT. Ninguém no partido defende nada diferente disso”, afirmou o líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS).

‘Lula Livre’ tem sido obstáculo para partido unificar campo da esquerda

A insistência em colocar o “Lula Livre” na pauta de manifestações e eventos realizados em conjunto com outras forças políticas tem, algumas vezes, sido um obstáculo para que o PT participe de articulações para unificar a centro-esquerda como frente de oposição ao governo Bolsonaro.

Duas semanas atrás, por exemplo, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, segundo colocado na eleição presidencial do ano passado, e o ex-ministro Aloizio Mercadante, deixaram de ir ao ato de lançamento da frente ampla Direitos Já, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca) por que os organizadores se recusaram a incluir o “Lula Livre” na pauta do evento.

A reação foi uma saraivada de críticas de outros setores da centro-esquerda que, nas redes sociais, acusaram o PT de sectarismo. “Não temos pretensão de que partidos de fora do nosso campo defendam o Lula Livre, mas também não vamos deixar de levar essa pauta onde quer que a gente vá”, disse Pimenta.

Segundo ele, isso não impede que o PT tenha forte atuação em conjunto com os demais partidos da centro-esquerda no Congresso. “O partido trabalha o tempo inteiro no sentido de construir frentes”, disse ele.

A tese vencedora defende que o PT deve “construir uma maioria consistente na sociedade – que não seja apenas eventual, conjuntural, mas que se afirme como verdadeira hegemonia democrática de ideias e valores se queremos chegar novamente ao governo federal com efetiva sustentação para promover as mudanças imediatas e históricas”.

Texto defende fortalecimento do Foro de São Paulo

O texto também defende a unidade em nível internacional por meio do fortalecimento do Foro de São Paulo, entidade que reúne dezenas de partidos e organizações de esquerda – algumas envolvidas em luta armada – do continente.

“Nesse sentido, o fortalecimento do Foro de São Paulo, como um dos principais instrumentos de articulação dos partidos de esquerda e progressistas latino-americanos é estratégico para nossa atuação no próprio continente”, diz o texto que tem entre seus autores Monica Valente, secretária executiva do Foro.

Resultado das eleições confirma favoritismo de Gleisi

O resultado parcial do PED confirma o favoritismo da deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), da CNB, para ser reconduzida à presidência do PT por mais dois anos. A eleição de domingo também vai definir os 800 delegados que vão participar do 7.º Congresso Nacional do PT, em novembro, onde será escolhida a nova direção nacional.

Os principais adversários de Gleisi, por enquanto, são dois colegas de bancada na Câmara: Pimenta e Paulo Teixeira (PT-SP). Os dois integram a chapa Resistência Socialista, corrente nova surgida a partir dos mandatos parlamentares e que estava em terceiro lugar, com 10% dos votos apurados até a noite de quarta-feira. O professor de história Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, que teve 5%, também deve concorrer.

Eleição do PT teve denúncia de fraudes e irregularidades

Embora ainda faltassem 13% dos votos para ser apurados, os petistas comemoraram o resultado do processo. Foram 310 mil filiados votando, 20 mil a mais do que os 290 mil que participaram do PED de 2017.

A exemplo de anos anteriores, foram registradas várias denúncias de fraudes e irregularidades no processo. Em São Luís (MA), houve confusão e a apuração foi interrompida quando candidatos constataram que algumas urnas tinham mais cédulas do que o número de assinaturas nas listas de votação.

No Rio de Janeiro, o ex-deputado Wadih Damous usou palavras duras como “práticas espúrias”, “fisiologismo” e “coronelismo” para denunciar supostas irregularidades. “Recebemos relatos dos mais diversos pontos de vans despejando pessoas”, disse ele.

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