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Eliane Cantanhêde
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Propaganda da tragédia alheia

Às voltas com a crise moral, o escândalo gigantesco da Petrobrás, o mergulho da economia, o descontrole da política e o encolhimento da política externa, o Brasil passa um outro vexame internacional: o enredo da escola de samba campeã do maior carnaval do mundo foi uma propaganda descarada de uma das ditaduras mais sanguinárias da África.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2015 | 02h05

A Beija-Flor e a embaixada da Guiné Equatorial negam que o país tenha despejado R$ 10 milhões para o sucesso da escola, mas alguém acredita que a propaganda foi de graça, pelo exemplo que a Guiné dá ao mundo ou pelos belos olhos do ditador Teodoro Obiang?

Sinceramente, já tão perplexos, indignados, morrendo de vergonha e pagando a conta dos desmandos alheios, bem que nós, brasileiros, poderíamos ter passado sem mais essa. A homenagem gratuita - quem sabe benemérita? - ao cruel e mais longevo regime africano reforça a imagem de um Brasil que joga fora os muitos ganhos das últimas décadas e onde a moral escorre pelo ralo na Petrobrás.

A Guiné Equatorial é um país rico com população miserável, onde o petróleo jorra fácil, a corrupção campeia e os seus ditadores, que assumiram o poder por um golpe de estado há 32 anos, têm bilhões de dólares em contas e em imóveis ao redor do mundo.

Enquanto isso, o povo morre de fome, de ignorância e de maus tratos. A expectativa de vida é de 53 anos e 90% não têm acesso à internet. E vem o Brasil transformar essa tragédia em festa na Sapucaí.

Diante do escândalo da Petrobrás e da falta óbvia de argumentos a favor do PT, do governo e da direção da estatal, os militantes que defendem o indefensável proclamam: "Mas todo mundo faz..." Pois na incrível relação da Beija-Flor com a Guiné Equatorial, os fanáticos pelo carnaval carioca dizem algo parecido: "Mas todas as escolas são controladas pelo tráfico e pelo banditismo...".

O que dizer? Só chorando e jogando a toalha, ou reagindo, multiplicando a indignação e recuperando a máxima do presidenciável Eduardo Campos em 2014: "Não vamos desistir do Brasil". Cada vez mais gente fica com esta segunda opção.

Se a roubalheira de bilhões de reais da maior companhia brasileira e a homenagem a uma ditadura nojenta ocorrem com a maior naturalidade, há muitas outras coisas acontecendo em solo nacional.

No próprio carnaval, houve uma novidade muito interessante, sutilmente alvissareira. A grande festa não ficou mais restrita às escolas de samba, ao luxo, ao silicone e ao Sambódromo do Rio. Os foliões puseram seus abadás e fantasias improvisadas e foram às ruas em diferentes pontos do País para, genuinamente, pular o carnaval. Inclusive na capital da República.

Aquela explosão popular a que a gente assiste todos os anos em Recife e em Salvador, por exemplo, dessa vez tomou conta do próprio Rio, de São Paulo, de Brasília, de muitas outras capitais. A sensação é de que nunca (ou pelo menos não nas últimas décadas) o carnaval foi tão das ruas e dos blocos.

Tem-se, assim, um País em profunda mutação, com sua imagem externa esfarelando e a indignação interna só crescendo, as escolas de samba chocando e as pessoas sambando na rua, a economia destrambelhada e a política na boca do povo.

Há dez anos, a euforia do principal país emergente, dando lições de como crescer e distribuir renda. Agora, a estupefação com a perda de importância, com a imensidão dos escândalos, com as contas que não fecham. A Beija-Flor da Guiné Equatorial vai de vento em popa e o Brasil caminha de marcha ré. Mas não vamos desistir do Brasil!

Esquecimento. A África era a cereja do bolo da política externa de Lula, mas sabe quantas vezes o chefe do Departamento de África do Itamaraty visitou algum dos 54 países do continente no ano passado? Nenhuma! E não foi por culpa dele.

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