André Dusek|Estadão
André Dusek|Estadão

Pronunciamento de Dilma no Senado é registro histórico de despedida

Um dos algozes da petista, o senador José Aníbal (PSDB-SP), hoje, é um ex-companheiro da resistência à ditadura

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2016 | 08h51

BRASÍLIA - O tom do pronunciamento da presidente afastada Dilma Rousseff no julgamento do impeachment nesta segunda-feira, 29, foi definido sob medida para ser um registro histórico de despedida. Dilma chegou à conclusão de que não adiantava mais tentar convencer senadores a votar a seu favor e decidiu fazer um depoimento dirigido à sociedade.

A narrativa do “golpe” foi reprisada porque serve a vários propósitos: da estratégia de defesa nos tribunais às eleições, passando pelo aceno à esquerda no Brasil e até mesmo no exterior. Tudo foi devidamente filmado para três documentários que serão lançados em breve.

Dilma também fez questão de encaixar no depoimento ao Senado o protesto contra a ruptura institucional. “Este é o segundo julgamento a que sou submetida em que a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus”, disse ela, com a voz embargada. “Este ferimento será muito difícil de ser curado”, insistiu, horas mais tarde, no fim de seu interrogatório.

José Aníbal. Integrante de organizações de extrema-esquerda, Dilma se referia à perseguição política sofrida na época da ditadura militar, quando foi presa e torturada. Um de seus companheiros de militância, em Belo Horizonte, era José Aníbal, hoje senador do PSDB por São Paulo e seu algoz. “A senhora sabe que não tem a mínima condição de continuar a governar”, constatou Aníbal, ao questioná-la nesta segunda-feira, no plenário do Senado. “Fico estarrecida por isso partir do senhor, que me conhece há tantos anos”, respondeu a petista.

Dilma e Aníbal se conheceram quando eram jovens, na capital mineira, e se tornaram amigos. Ela chegou a lhe dar aulas de matemática em casa. Os dois atuavam na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) e, no fim dos anos 60, entraram na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na campanha de 2010, quando ela concorreu pela primeira vez à Presidência, Aníbal – então deputado federal – se referiu à ex-companheira de luta com certo saudosismo. “Dilma sempre foi inteligente, mas infelizmente está contaminada pelo PT”, avaliou, à época.

O relacionamento entre os dois se deteriorou ainda mais quando ele foi secretário de Energia do governo de Geraldo Alckmin, de 2011 a 2014. Primeiro suplente na chapa de José Serra, Aníbal assumiu o mandato de senador em maio, quando o colega tucano foi chamado pelo presidente em exercício, Michel Temer, para comandar o Ministério das Relações Exteriores.

Nesta segunda-feira, frente a frente com Dilma, Aníbal disse: “Julgar a senhora seria penoso para mim. Mas seu governo não existe mais. O legado que a senhora nos deixa está nos levando a um retrocesso devastador.” Sob o argumento de que ele desconhecia a realidade, a presidente afastada retrucou: “Que o senhor não me condene antes da hora!”. O senador do PSDB é um dos que votarão pelo impeachment de Dilma. Em conversas com aliados, a petista não escondeu a mágoa com o antigo amigo de juventude.

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