Promotores vão intimar empresário a explicar anúncio cifrado

O empresário Roberto Figueiredo do Amaral, que até o ano passado era o mais poderoso executivo de uma das maiores construtoras do Brasil, a Andrade Gutierrez, vai ser intimado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo para explicar os termos de uma mensagem cifrada que uma de suas empresas mandou publicar, na forma de anúncio, na edição desta terça-feira de alguns jornais brasileiros. O anúncio fala de uma "missa de qüinquagésimo dia in memorian de José Rubens (Dolly)". Dolly é o apelido do atual presidente da Andrade Gutierrez, José Rubens Goulart Pereira, casado com uma sobrinha de Amaral e levado à presidência da empresa por um esforço do próprio Amaral. No ano passado, para garantir o cargo à Pereira, Amaral chegou a se desentender com outros sócios. A missa, de acordo com o anúncio, teria ocorrido na Fazenda Bananal, divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro, onde há exatos 50 dias Amaral e Pereira teriam brigado e rompido relações. O anúncio cita ainda o ex-prefeito Paulo Maluf (PPB), seu filho Flávio e o ex-governador Orestes Quércia (PMDB), entre outros. "Trata-se claramente de uma mensagem cifrada que parece grave", afirmou nesta quarta-feira o promotor da Cidadania Silvio Antônio Marques. "Aparentemente é uma ameaça que uma pessoa está fazendo com relação a outra."Marques e o promotor Marcelo Mendroni, do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), investigam denúncias de superfaturamento em obras públicas durante a gestão Maluf e os supostos depósitos do ex-prefeito em paraísos fiscais, e, por isso, decidiram nesta quarta intimar Amaral a depor. "Temos que checar todas as histórias envolvendo o senhor Paulo Maluf por causa das investigações que estão em curso", justificou Marques. Nesta terça-feira, assim que o anúncio foi publicado, e durante a manhã desta quarta, os promotores iniciaram investigações para atestar a veracidade de alguns termos do anúncio. Descobriram, por exemplo, que o tal Banco Helvético Cordier citado no anúncio não existe na Suíça, mas há uma poderosa instituição financeira com um nome muito próximo, a Bordier e Cie, que, entre outras coisas, é especialista em gestão de fortunas. Um dos nomes citados, Mr. Swenka, pode ser, de acordo com os promotores, um empresário suíço com sobrenome Schunk. O anúncio, produzido pela agência de publicidade Manager, do jornalista Gilberto di Pierro, o Giba Um, deveria ter sido publicado nos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Estado de Minas e Correio Braziliense.O Estado e o Correio Braziliense se negaram a publicá-lo. Segundo documento divulgado pelo Ministério Público, o termo de responsabilidade para a publicação em O Estado de S. Paulo foi assinado por Reynaldo Andrade Costa, em nome da RV Consultoria e Participações Ltda.A RV pertence a Roberto do Amaral e a Costa. Foi ela que contratou a Manager para produzir e distribuir o anúncio. Amaral encontra-se em viagem ao exterior.A assessoria de imprensa de Maluf divulgou no final da tarde desta quarta-feira uma nota oficial sobre a decisão dos promotores. "Sempre que investigam Paulo Maluf, fazem isso com estardalhaço e sem provas, por coisas que ele jamais fez", diz a nota. "Paulo Maluf nunca teve ligações com empreiteiras e não teme nenhuma investigação sobre isso."Maluf aproveita a nota para atacar os promotores. "Mas é de se perguntar por que esses mesmos promotores não aproveitam a oportunidade e sugiram também que se investigue a falcatrua do governo do Estado de São Paulo, divulgada há mais de um mês, de que será superfaturado para empreiteiras, em 85%, o reajuste no preço das obras de construção do Rodoanel de São Paulo", afirma. A integra do anúncio de Roberto Amaral e família comunicam a realização, na última segunda-feira, dia 24 de setembro, de missa de quinquagésimo dia in memorian de José Rubens (Dolly), rezada na Fazenda Guanabira.Auxiliar dedicado por 28 anos, sócio minoritário por 17 anos (até 2001, ano em que não prestou contas, como fazia rigorosamente, todos os anos) e autor de inúmeras cartas, nas quais demonstrava sua eterna lealdade e gratidão, deixou patrimônio real considerável.Presentes estavam, entre outros, Mr. Swenka, do Banco Helvético Cordier, Gabriel Donato de Andrade e Sérgio Andrade ? donos da empreiteira Andrade Gutierrez. Os donos da empreiteira lideraram, com fervor, o entoar de um salmo em louvor e solidariedade ao Dr. Paulo Maluf e seu filho Flávio, para que terminem as persecutórias agruras que estão enfrentando. Ao piano, João Carlos Martins ? o abandonado no caso Pau-Brasil. Gabriel e Sérgio também fizeram penitência, pedindo perdão a Orestes Quércia.

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