Promotores pedem perícia em fitas do caso Celso Daniel

Os promotores que investigam o caso Celso Daniel entregaram ao Instituto de Criminalística de São Paulo um CD que receberam de um remetente anônimo com gravações da escuta telefônica de pessoas ligadas ao prefeito de Santo André, assassinado em janeiro de 2002. Eles pediram ao diretor de Documentoscopia do Instituto, Carlos do Vale Fontinhas, que tente rastrear a origem do CD."Ao longo de toda a investigação desse caso nenhuma prova caiu no nosso colo", diz José Reinaldo Carneiro, um dos três promotores do Grupo de Atuação Especial Regional para Prevenção e Repressão ao Crime Organizado (Gaerco) que trabalham no caso. "Queremos saber por que essa nos caiu no colo. Isso quer nos dizer algo." Os promotores suspeitam que as gravações possam ter sido editadas de modo a induzir a alguma conclusão sobre o caso. "Não vamos aceitar isso jamais", disse Carneiro.Segundo ele, entregadores em motocicletas sem identificação deixaram quase simultaneamente uma cópia do CD na casa de cada um dos promotores, no fim da tarde de sexta-feira. Os envelopes continham só o endereço dos destinatários. "Foi uma surpresa, uma coisa muito estranha", contou Carneiro. Ele e o promotor Amaro Thomé Filho, que receberam antes seus envelopes, avisaram o terceiro colega, Roberto Wider Filho, para que não abrisse o seu, e assim preservá-lo para exame de impressões digitais. Fontinhas se mostrou cauteloso quanto às pistas que possam ser encontradas nos CDs, já entregues a um perito em informática do Instituto. "É prematuro falar em rastrear a origem", disse o diretor. "Primeiro, é preciso ouvir horas e horas de gravações, até se ter uma idéia do que é possível levantar." Segundo ele, o laudo pode demorar cerca de 30 dias.Rocha Mattos A escuta foi declarada ilegal pelo juiz João Carlos da Rocha Mattos - preso depois, sob acusação de vender sentenças. Segundo ele, o juiz estadual que autorizou a escuta não tinha competência para isso. Rocha Mattos mandou destruir as 42 fitas, mas cópias delas foram encontradas depois pela polícia, na operação de busca e apreensão feita na casa de sua ex-mulher, a auditora do Tesouro Norma Regina Emílio Cunha, que também está presa. O CD, obtido pelo Estado, contém 42 faixas de gravação, incluindo conversas entre amigos do prefeito assassinado e de bandidos, presos ou soltos, tramando crimes, comentando que estão foragidos, etc. Tecnicamente, a escuta é considerada uma prova ilegal e os promotores não a usaram na investigação que levou à prisão do empresário Sérgio Gomes da Silva - amigo do prefeito, que estava com ele na noite do crime -, sob acusação de ser o mandante do crime. O uso das gravações "contaminaria" a investigação, tornando todas as provas ilegais. As conversas deixam patente a intensa coordenação entre dirigentes do PT, integrantes da Prefeitura de Santo André e pessoas ligadas ao prefeito, como sua namorada, Ivone Santana, e o próprio Gomes. Também fica clara a estreita coordenação entre Gomes e o empresário Ronan Maria Pinto, da área de transportes públicos.Numa das passagens, Gomes recebe um telefonema de uma pessoa que quer lhe fazer uma entrega. "Eu estou te mandando aquele negócio lá que a gente combinou, a minha parte. O Fernando que vai te levar. Está num envelope", explica o interlocutor de Gomes, que lhe pergunta: "Está em numerário?" O outro responde. "É, em numerário. Ele vai chegar aí e de alguma forma te encontra aí no Paço." As gravações das conversas entre as pessoas do entorno do prefeito assassinado estão reunidas numa pasta denominada "Sombra", o apelido dado a Gomes. Fora dessa pasta, há uma série de conversas entre bandidos. Dessas, a mais contundente é um diálogo entre dois bandidos, que não se identificam, e tramam friamente o assalto ou seqüestro de um empresário em Jundiaí. "Tô vendo um baratinho pra pegar pra Jundiaí", diz um dos bandidos, mencionando em seguida negócios que o empresário tem na cidade. "Vou ver a chegada do cara na casa dele como que é."

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