Projeto usa DNA para mapear expansão humana

Brasil poderá ser um dos centros para estudos com povos indígenas.

Carolina Glycerio, BBC

23 de agosto de 2007 | 08h30

Usar pesquisas de DNA para rastrear a história expansão humana. Esse é o objetivo do Projeto Genográfico da National Geographic: mapear as migrações pré-históricas humanas que saíram da África, dezenas de milhares de anos atrás, a partir do estudo do DNA de cem mil pessoas de populações indígenas. Para o projeto, a sociedade científica montou dez centros ao redor do mundo, incluindo um em Belo Horizonte, Minas Gerais, sob a coordenação do biólogo e professor Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A participação brasileira, no entanto, ainda depende de uma aprovação da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), que está pendente desde 2005.O centro brasileiro deverá servir de base para trabalhos em toda a América do Sul. "Este projeto pretende colocar em evidência os povos indígenas na história do Brasil e da América pré-colombiana, da qual temos pouquíssimos registros já que os indígenas não conheciam a escrita", afirmou Santos."Queremos contar a história da ocupação da América do Sul: como a gente chegou aqui e ocupou isso tudo", acrescentou Pedro Paulo Vieira, que trabalha com Santos no projeto como coordenador das atividades de campo. Mas os pesquisadores ainda esperam a aprovação da Conep para dar início aos trabalhos de amostragem de indígenas no Brasil. Enquanto não sai a autorização, os pesquisadores darão início em breve à análise de amostras de DNA colhidas em outros países.No Peru, por exemplo, o projeto já começou, com uma expedição de campo em julho, na qual já foi estabelecido o contato - e colhidas algumas amostras de DNA - de indígenas Quechua e Aimará. Pedro Paulo Vieira diz que a aprovação é complexa porque tem de levar em conta "um histórico pregresso de falta de respeito no contato com esses povos", mas reconhece que estão no limite do prazo para concluir os trabalhos até 2010, quando termina o projeto. Além do centro mineiro, haverá outros nove espalhados pelo planeta. O objetivo é que cada um deles processe de 5 mil a 10 mil amostras de DNA de indígenas de cada continente. Cerca de 30 mil pessoas já foram testadas e a idéia é chegar a 100 mil até 2010.No caso do Brasil, todo o contato com as lideranças indígenas será feito, se o projeto for aprovado, por intermédio da Funai (Fundação Nacional do Índio). Populações completamente isoladas - estima-se que haja 46 delas na Amazônia - não serão abordadas.O objetivo do diretor-geral do projeto, o americano Spencer Wells, é usar as informações sobre os antepassados dessas pessoas, que ficaram "gravadas" em seus DNAs, para reconstituir os movimentos humanos milhares de anos atrás. A National Geographic chama as populações que terão seu DNA testado de "populações chave". Na definição da sociedade científica, são populações estáveis que vivem nas suas respectivas regiões geográficas e preservam a sua cultura há diversas gerações. "Os indígenas brasileiros podem contar um pouco da história pré-colônia através de seus DNAs", exemplifica Santos.Ele ressalta ainda que não se trata de um projeto "de geneticista para geneticista" e, sim, de um trabalho conjunto que envolve áreas como arqueologia e linguística e que pretende trazer respostas de como esse continente foi ocupado."Quando estudamos história do Brasil, pouco se fala da história dos indígenas antes da chegada dos europeus. É com ciências como a genética, arqueologia, linguística e antropologia que é possível resgatar a história dos povos indígenas e levá-las para conhecimento da sociedade, incluindo os próprios indígenas."Entre outras perguntas que os pesquisadores pretendem responder estão como se deu a expansão dos Tupi no Brasil? É verdade que os vikings chegaram à América do Norte antes de Colombo? Os índios Botocudos são descendentes de Luzia, como foi batizado o esqueleto mais antigo encontrado nas Américas?O biólogo Walter Neves, Professor Associado do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, explica que as teses atualmente vigentes usadas para explicar o que ele prefere chamar de "expansões humanas" - já que o termo migrações implicaria um destino conhecido, que não existia - são baseadas, sobretudo, em descobertas da arqueologia a da paleontologia. Neves, que também é antropólogo e arqueólogo, explica que há um certo consenso na comunidade científica de que o homo sapiens surgiu na África por volta de 200 mil anos atrás e de lá "tentou sair" três vezes.Na primeira, explica Neves, há 120 mil anos, o homem só conseguiu chegar até o Oriente Médio. A segunda expansão, 70 mil anos atrás, levou o homem até o litoral sul da Ásia, de onde ele foi para o Sudeste Asiático e para a Austrália. Na terceira, ocorrida entre 45 mil e 50 mil anos atrás, já provido de uma tecnologia mais avançada, o homem teria conseguido se expandir para todos os lados.Segundo Neves, a genética pode não só pôr essas teses à prova como revelar mais detalhes sobre os primórdios da humanidade. "Para ter uma compreensão mais detalhada das expansões humanas, mas sobretudo da última, que foi mais retumbante, precisamos necessariamente estudar a diversidade genética que existe hoje", afirmou Neves, responsável pelo estudo de "Luzia", o esqueleto humano mais antigo das Américas.Além de testar as populações tradicionais, a National Geographic abriu ao público geral a possibilidade de participar do projeto como voluntário, comprando um "kit de genealogia" no site da entidade. Cerca de 220 mil kits já foram vendidos. Os exames estão sendo feitos pelo Laboratório Family Tree DNA, que tem entre seus sócios o brasileiro radicado nos Estados Unidos Max Blankfeld.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.