Denis Ferreira Netto/Estadão
Denis Ferreira Netto/Estadão

Projeto que torna parques inclusivos vira modelo de política pública

Modelo que já alcança 80 municípios foi idealizado por publicitária de Curitiba, mãe de uma filha com paralisia cerebral

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 05h00

Crianças pobres e ricas dificilmente dividem o mesmo espaço de brincar no Brasil. Separadas geralmente por muros de condomínios, são poucos os parquinhos que permitem esse encontro. Mais raros ainda são os que incluem, por exemplo, crianças cadeirantes, autistas severos e deficientes visuais. Balanços, gangorras, gira-giras e outros brinquedos clássicos atendem quem está dentro dos padrões. Mas há exceções.

Com as adaptações indicadas, dá até para andar de skate preso a um cinto de segurança ou escorregar sem o risco de se machucar no chão. Mas é claro que a mágica não acontece sozinha, como bem sabe a publicitária Shirley Ordônio, de 45 anos. Cansada de ver filha com paralisia cerebral ser excluída das brincadeiras, ela resolveu fazer política. E aprendeu na marra.

Em 2012, quando criou o Projeto LIA (Lazer, Inclusão e Acessibilidade), Letícia Ordônio Zeni, de 11 anos, tinha menos de 2. Gêmea idêntica de Camila, ela ficava na cadeira de rodas enquanto os irmãos brincavam no parquinho – o mais velho é Leonardo, de 13. Até que Shirley resolveu quebrar essa rotina. Pegou as almofadas da cadeira da filha e forrou o balanço para que também Letícia pudesse se divertir. E o resultado mudou a vida de toda a família.

“Naquele dia, sentindo o vento no rosto, minha filha gargalhou. Foi a primeira gargalhada dela e foi muito alta. Foi também a primeira vez que eu pude ouvir a sua voz. Todos ficaram impactados. É como se naquele momento tivessem percebido que ela existia, que não era um enfeite, um móvel, mas uma menina cheia de vida. Saí dali e fui pesquisar. O LIA nasceu assim”, relatou.

Quase uma década depois, seis parques de Curitiba, cidade onde moram, oferecem parquinhos inclusivos num formato que já chegou a 80 municípios de 17 Estados. Limeira, no interior paulista, foi a primeira cidade a atender o LIA e aprovar uma lei própria, em 2015.

“Oferecer espaços que permitam a inclusão é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODs) da ONU. Há um desenho universal para esses equipamentos e para o espaço. Eles precisam, por exemplo, ter um piso emborrachado ou de cimento. Não pode ser areia ou grama porque atrapalha quem está em uma cadeira de rodas.”

Corrente. O conhecimento adquirido é compartilhado. Shirley tem um modelo de projeto de lei completo (que inclui até orçamento dos brinquedos), que repassa via WhatsApp a assessores de vereadores, deputados e secretarias municipais e estaduais.

“Hoje eu sei o caminho, mas no começo não fazia ideia de como montar um projeto ou mesmo quem procurar. Sabe que cheguei a mandar uma carta para a presidente Dilma Rousseff? Até me responderam, dizendo que passariam o pedido à área responsável, mas depois é que entendi que era o vereador ao lado da minha casa que poderia ajudar.”

Os primeiros brinquedos foram instalados com doações privadas e recursos de emendas parlamentares. A capital do Paraná só aprovou uma legislação apropriada em 2019 e caminha para tirá-la do papel. 

Na capital paulista, a lei existe desde 2016 e vale para áreas de lazer públicas e particulares, mas não é cumprida nem pela Prefeitura. Só seis de 108 parques têm adaptações em seus playgrounds. Ao Estadão, a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência informou que outros dois estão em fase final de implementação e que criará um grupo para tratar do tema.

Paulistana de nascimento, Shirley torce para que São Paulo avance na inclusão. Há cerca de dez dias, a filha experimentou pela primeira vez uma gangorra. “E foi sem a cadeira de rodas. Ela ficou livre, se divertiu e sentiu que era para ela.” Aos 11 anos, Letícia finalmente pode escolher onde e com quem brincar, já que os parquinhos inclusivos atendem a todos, sem exceção. O gira-gira foi eleito a brincadeira preferida da menina e ela gosta que gire bem rápido, sempre com emoção. 

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