Projeto milionário da Madeira Mamoré vira pesadelo com 6 mil mortos

Nada em Porto Velho lembra a turistas ou habitantes o que foi a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Uma verdadeira saga de quase cinco décadas, entre 1876 a 1912. De 1876 a 1882, algumas empreiteiras inglesas e americanas se atrelaram, sem sucesso, à construção da ferrovia. O desafio era criar uma alternativa viável ao tráfego de mercadorias sobre os rios Madeira e Mamoré, cujas 20 cachoeiras tornavam perigosa a navegação. O projeto de implantação da Madeira Mamoré só encontrou seu verdadeiro impulso em 1903, quando o Brasil negociou com a Bolívia a compra do atual Estado do Acre. Através do Tratado de Petrópolis, os dois países findavam um conflito deflagrado pela ocupação de terras bolivianas por seringueiros brasileiros. Além de pagar 2 milhões de libras à Bolívia, o Brasil obrigava-se, pelo acordo, a construir uma estrada de ferro que viabilizasse o escoamento da borracha boliviana até os mercados internacionais do oceano Atlântico. Financiada por capitais americanos e ingleses, a Madeira Mamoré Railway Company (MMRC) foi fundada em 1905 e administrou a implantação da ferrovia entre 1907 e 1912. Durante quatro anos a MMRC importou mais de 21.000 operários oriundos de 52 países diferentes para desbravar a selva e deitar o leito da ferrovia em condições quase subumanas. Exército multiétnico Museu Paulista Grande quantidade de borracha a ser embarcada na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.Embrenhados na selva, japoneses, indianos, gregos, italianos franceses, poloneses, afro-caribenhos, entre outros estrangeiros, conviviam com um forte contingente de nordestinos, afugentados pela seca. Algumas famílias, cujos descendentes vinham de antigas colônias do Império britânico, ainda vivem entre Porto Velho e Guajará-Mirim.?Meu pai era da ilha de Trinidad no Caribe. Ele foi contratado pela MMRC como marceneiro qualificado para construir os acampamentos dos trabalhadores ao longo da estrada?, conta Dionísio Shockness, maquinista aposentado da EFMM. De religião anglicana, iniciado como o pai à Arte Real de uma loja maçônica inglesa, Dionísio relata que certas famílias caribenhas de Porto Velho ainda conversam em inglês vitoriano com os filhos.Desse verdadeiro exército multiétnico de trabalhadores, estima-se que 6.000 morreram em conseqüência de doenças tropicais e acidentes de 1907 a 1912, dando à estrada sua macabra reputação. ?As nuvens de carapanãs (mosquito transmissor da malária) foram para a Madeira Mamoré o que os leões do Tsavo foram para a ferrovia africana de Mombasa-Kampalauma, no Quênia?, compara o historiador Emmanuel Gomes, ao relembrar a famosa dupla de leões assassinos de 1898. Museu Paulista Grande quantidade de borracha a ser embarcada na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A maldição da Estrada de Ferro Madeira Mamoré acompanhou-a até sua inauguração em 1912. À época, o preço da borracha despencou no mercado internacional, levando a ferrovia à falência logo nos seus primeiros anos de atividade.A decadência precoce da estrada marcava o fim de uma aventura que custara à Primeira República o equivalente a cerca de 30 toneladas de ouro; o triplo que viria a ser desembolsado em 1936 na criação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro.Ainda que funcionando em regime deficitário até os anos 60, a Madeira Mamoré não deixou de ser, segundo historiadores, a espinha dorsal do estado de Rondônia. Deu origem às suas duas principais cidades, Porto Velho e Guajará-Mirim, e serviu ao tráfego da população e das mercadorias nacionais entre o noroeste mato-grossense, o Amazonas e o Pará.

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