Nilton Fukuda / Estadão
Nilton Fukuda / Estadão

Projeções viram nova forma de se manifestar

Grupo ‘Projetemos’, que reúne 150 integrantes, transmite mensagens otimistas e de protesto

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2020 | 05h00

Em tempos de pandemia e confinamento, um novo tipo de protesto passou a acompanhar os panelaços contra o governo Jair Bolsonaro. Projeções feitas em paredões de prédios dão voz às pessoas que, dentro de casa, acham que bater panela é pouco para manifestar indignação política ou alertar sobre os cuidados recomendados contra o coronavírus.

Em menos de 24 horas, a iniciativa de um produtor de vídeo e de uma cientista política, ambos moradores de São Paulo, ganhou o País. Pelas redes, o Projetemos, que hoje virou um grupo com mais de 150 pessoas, debate diariamente a pauta das mensagens e compartilha arquivo único para projeção, mesmo que de forma caseira, e dicas para obter o melhor resultado.

De acordo com o VJ Spencer, um dos criadores do grupo, basta baixar as imagens no computador, conectá-lo a qualquer projetor e apontar para uma parede vizinha. As exposições são informais, ou seja, sem autorização de condomínios ou das prefeituras - na capital paulista, a Lei Cidade Limpa proíbe esse tipo de ação.

“Nossa intenção é conscientizar as pessoas sobre a situação que estamos vivendo, destacar a posição dos especialistas da área médica e protestar contra a postura do governo diante da pandemia.”

 

Na semana passada, as projeções se tornaram coletivas, diárias (sempre às 20h) e com duas horas, em média, de duração. Nesse período, as mensagens são trocadas, alternando dicas de saúde com críticas políticas. Salvador, Recife, Rio, Belo Horizonte e Brasília são algumas das cidades que já registraram ações do Projetemos.

O grupo faz contato, quando possível, com especialistas para chegar às frases ideais. O vereador petista Eduardo Suplicy, por exemplo, foi procurado na semana passada para explicar o que é renda básica, programa de distribuição de renda aprovado pela Câmara como ação emergencial para autônomos que estão sem trabalhar. O governo pagará até R$ 1,2 mil por família durante o período da quarentena.

Os participantes também tomaram partido na polarização mais recente da política brasileira: a necessidade de isolamento social para combater a pandemia, defendida por governadores e negada pelo presidente Jair Bolsonaro. Nas paredes dos prédios, mensagens como “Ei, mano, fica em casa” fizeram defesa do distanciamento emergencial.

Empatia. Mas nem tudo é protesto. Brunna Rosa, que trabalha como estrategista de redes sociais, diz que o objetivo é também focar na formação de uma rede de afeto. Ela destaca as mensagens otimistas projetadas em todo o Brasil, como “Vai dar tudo certo” ou “Vai passar, fiquem vivos para ver.”

 

“As nossas projeções são coletivas desde o dia 21. Foi fantástico nesse dia ver uma enorme rede de solidariedade e informação se formando”, disse Brunna. “E depois todo mundo manda foto dos bastidores. Tem gente que coloca o projetor em cima de uma tábua de passar roupa, na pia da cozinha, adaptado num banquinho. Todo mundo pode dar um jeito de usar a arte para quebrar barreiras.”

A repercussão ganhou as redes e o grupo começa hoje a ensinar a distância como dar seu recado. Uma live destinada a jovens da Rocinha, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, oferece uma introdução à projeção mapeada. “Mesmo quando essa pandemia passar vamos continuar com as mensagens. Sempre há o que reivindicar”, diz Spencer.

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