Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Progressistas prevê apoio a Bolsonaro e Lula nas eleições de 2022

Legenda de Ciro Nogueira, Arthur Lira e Ricardo Barros vai se dividir na disputa, principalmente no Nordeste

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 05h00

BRASÍLIA – Principal partido da base de sustentação do presidente Jair Bolsonaro, o Progressistas vai se dividir no apoio a candidatos na campanha de 2022. Embora avalize o governo Jair Bolsonaro e tenha conquistado ainda mais prestígio com a entrada de Ciro Nogueira na Casa Civil, o partido tem estratégias diferentes nos Estados, principalmente no Nordeste, onde disputas regionais fazem uma ala se movimentar na direção de alianças com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O deputado André Fufuca (MA), que assumiu a presidência do Progressistas após Nogueira ter sido nomeado na Casa Civil, afirmou que a direção nacional deverá dar autonomia para as seções estaduais tomarem decisões em 2022. Apesar do aceno de que o Progressistas não agirá como bloco na campanha, Fufuca observou que ainda não há qualquer acordo fechado para as eleições. “Tem muita água para passar debaixo da ponte até lá”, justificou.

A aliança do Centrão com o governo, simbolizada por Nogueira como “capitão do time” e por Arthur Lira (AL) no comando da Câmara, não impediu que o principal partido desse grupo mantivesse vínculos com o PT de Lula no Nordeste, sobretudo na Bahia e em Pernambuco.

Lula pretende fazer uma maratona de viagens pela região, nos próximos dias, e Bolsonaro também investe cada vez mais no reduto petista. Nesta sexta-feira, 13, por exemplo, esteve no Ceará para entregar moradias populares. Em Juazeiro do Norte, Bolsonaro disse que defende “a bandeira de Padre Cícero” e continua “combatendo o comunismo”.

Além das reuniões esperadas com governadores do PT e com partidos aliados da esquerda, como o PSB, Lula vai se encontrar com líderes do Progressistas, como o vice-governador da Bahia, João Leão, e o deputado Eduardo da Fonte (PE), ambos presidentes dos diretórios estaduais da legenda.

A primeira parada será no Recife (PE), neste domingo. O senador Humberto Costa (PT-PE) confirmou que o ex-presidente pretende ir além das conversas com a esquerda. “Ele vai se reunir com todos os partidos da frente popular (da base do governador Paulo Câmara, do PSB). Vai fazer muitas conversas lá”, disse o senador.

Costa defendeu o diálogo com o Centrão. “Existem partidos lá que já se relacionaram conosco, que nós temos boa relação, mas que hoje estão na base de sustentação de Bolsonaro”, disse. O Progressistas é a principal legenda do Centrão, grupo informal de partidos conhecido pela troca de apoio político por cargos, e também abriga o deputado Ricardo Barros (PR), líder do governo na Câmara e alvo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid.

Na eleição presidencial de 2018, os cenários estaduais também contrastaram com o nacional. O próprio Nogueira, que era presidente do partido, preferiu apoiar o PT e aparecer em comícios do então candidato à Presidência Fernando Haddad no Piauí. À época, o Progressistas estava na coligação que apoiava o concorrente do PSDB, Geraldo Alckmin, e tinha Ana Amélia como vice da chapa.

Em um aceno às alianças locais, o PT votou quase que integralmente – 48 de uma bancada de 53 – pela volta das coligações para as eleições de deputados e vereadores. A retomada dessa regra eleitoral foi aprovada na Câmara em primeiro turno, ainda precisa passar por mais uma votação ali e, depois, pelo crivo do Senado.

Para o cientista político Bruno Carrazza, o retorno das coligações proporcionais à cena política favorece o PT, embora o partido seja grande. “Com a volta das coligações, o PT vai poder organizar e se coligar com vários partidos do Centrão nos Estados”, disse ele.

Carazza também avaliou que a mudança dificulta o surgimento de uma alternativa entre Lula e Bolsonaro. “Parte do Centrão vai ficar com Bolsonaro e outra parte, com o PT. Vai sobrar muito pouco para, eventualmente, surgir alguém que não seja Lula e Bolsonaro”, observou.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, negou a preferência do partido pelas coligações, disse que os votos foram para impedir o “distritão” – modelo no qual os candidatos mais votos nos Estados são eleitos – e declarou que as alianças podem ser feitas com as regras atuais. “Isso (apoio do Centrão nos Estados) independe das coligações proporcionais”, afirmou a deputada.

Filiação. Com a ida de Ciro Nogueira para o Palácio do Planalto e ainda sem a definição do futuro partido de Bolsonaro, que está sem legenda desde 2019, as negociações para que o presidente se filie ao Progressistas foram retomadas.

“Bolsonaro vai procurar um partido que dê melhores condições para ele trilhar o projeto de reeleição”, disse André Fufuca. “Se (Bolsonaro) for para o PP, vai começar esse projeto.”

Vice do petista Rui Costa no governo da Bahia, João Leão foi o primeiro filiado do Progressistas a vocalizar a insatisfação com a possibilidade de entrada de Bolsonaro no partido. “Bolsonaro quer um partido para ter comando. No PP (como o Progressistas é conhecido), ele não vai ter. O partido tem um comando parlamentarista. Todos temos voz e vez”, afirmou Leão, em entrevista ao jornal A Tarde. O vice-governador da Bahia é pai do deputado Cacá Leão (BA), líder da sigla na Câmara.

Em 23 de julho, dois dias após Nogueira ser convidado para a Casa Civil, João Leão fez uma publicação nas redes sociais defendendo a aliança com o PT de Rui Costa e com o PSD do senador Otto Alencar, integrante da CPI da Covid e opositor de Bolsonaro.

“Vou falar do teodolito. Ele tem três pés: um pé na política, que é o PT, o outro é o PSD e o PP”, afirmou Leão, em vídeo postado no Facebook. O vice-governador pregou a manutenção da aliança. “Temos no meio o pêndulo, que são partidos aliados nossos, que ficam no pêndulo para dar equilíbrio ao teodolito. O que nós queremos? Manter esse grupo junto”, insistiu.

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