Professores espalham mapa falso da Amazônia via Internet

Em maio do ano passado, o site www.Brasil.iwarp.com, mantido o por ex-militares das forças armadas sob o sugestivo lema "Brasil, ame-o ou deixe-o", causou considerável celeuma ao publicar um mapa forjado mostrando que em 1816, quando os Estados Unidos tinham apenas 40 anos como nação independente, seus líderes já cobiçavam a Amazônia. Segundo milhares de mensagens que, na época, espalharam-se rapidamente pela Internet, o mapa constaria de um livro didático usado em escolas secundárias americanas, cuja existência também se comprovou falsa. O episódio chegou a provocar desmentidos oficiais em Brasília e Washington. Uma investigação informal conduzida pelo governo brasileiro chegou à origem da operação: oficiais de pijama ligados à direita nacionalista. A história da internacionalização da Amazônia foi ressuscitada há duas semanas na Internet. Desta vez, o mapa é mais recente, a origem da teoria conspiratória parece ser a esquerda e a identidade dos espalhadores, senão dos autores, do boato eletrônico é conhecida: trata-se de professores universitários. De acordo com mensagem que começou a circular na semana passada, os alunos ?da escola junior high? dos Estados Unidos estariam aprendendo que a Amazônia já não é mais compartilhada pelo Brasil e sete de seus vizinhos. A prova estaria no livro "An Introduction to Geography", de um certo David Norman. A mensagem não fornece a data de publicação ou o nome da editora do livro. Mas traz, como anexo, um fac-símile de uma única página da suposta obra, mostrando um mapa da América do Sul com vastas parcelas da Amazonia designadas como "The Former Int´l Reserve of Amazon Forest", ou seja, "a antiga reserva internacional da floresta amazônica". A mensagem foi enviada sob o título "É o fim da picada!" a uma lista de mais de cem pessoas do mundo acadêmico pelo professor Paulo Ribeiro da Cunha, do Departamento de Ciência Política da Unesp-Marília. "Olhem o anexo e comprovem o que consta à página 76 do livro e vejam que os americanos já consideram a Amazônia uma área que não é território brasileiro, uma área que rouba território de oito países da América do Sul e ainda por cima com um texto de caráter essencialmente preconteituoso", escreveu o professor, no dia 14 de novembro.Um pedido de esclarecimento sobre a origem do mapa feita for uma das pessoas que o receberam obteve resposta da mulher de Cunha, Meire Mathias. Em mensagem do dia 16, ela confirmou que seu marido distribuiu o e-mail para a lista. Mas Meire identificou o remetente original como Danilo Martuscelli, um pesquisador do Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas. "O Paulo, meu marido, disse-me que não possui informações adicionais a aquela (sic) contidas na mensagem", escreveu ela. "O conteúdo da mensagem-denúncia é, ao nosso ver, intrigante e os destinatários que fizeram com que a mesma chegasse à nós são pessoas idôneas, preocupadas e comprometidas com o futuro do País e com a nossa imagem no cenário internacional". Elas podem ser tudo isso. Mas são também pessoas que não parecem ter um mínimo de conhecimento da língua inglesa e do sistema escolar dos Estados Unidos ou a preocupação de verificar a autenticidade de informações sensíveis antes de passá-las adiante. Os mistérios da língua inglesaO simples exame do texto que acompanha o mapa revela que seu autor é brasileiro - um brasileiro que se julga conhecedor da língua inglesa mas comete erros crassos a cada duas ou três palavras que escreve no idioma de William Shakespeare. Fica patente que o texto foi pensado em português e vertido para o inglês, resultando num exemplo acabado do que alguns chamam de ?ingreis? ? o divertido dialeto das traduções literais e sem sentido que Millôr Fernandes consagrou no livro ?The Cow Went to the Swamp?, ou, em bom português, ?A Vaca foi para o Brejo?. A primeira frase do texto que acompanha o susposto mapa da Amazônia internacionalizada comprova a falsidade da operação. "Since the middle 80´s, the most important rain forest of the world was passed to the responsability of the United States and the United Nations", diz o texto, numa língua que o autor supõe ser inglês mas é incompreensível para um americano. Trata-se de uma versão literal e sem sentido de uma frase capenga mesmo em português: "Desde meados dos anos 80, a mais importante floresta úmida do mundo passou para a responsabilidade dos Estados Unidos e das Nações Unidas". Alguns exemplos dos erros mais grintantes: meados, em inglês, é "mid" e não "middle". Fosse "middle", pediria a preposição "of". O verbo "to pass" tem vários significados em inglês, mas um deles não é "transferir", usado pelo autor. Mais: em inglês não se escreve "the most important rain forest of the world", mas "the world´s most important rain forest". E a expressão "the most important", usada aqui com o significado de "a maior", seria substituída por "the largest" por um americano - estivesse ele ou não interessado em roubar a Amazônia. Os professores que espalharam o falso mapa poderiam ter também se dado ao trabalho de verificar a autenticidade do livro mencionado na "mensagem-denúncia". É um cuidado que se deve esperar de educadores idôneos preocupados com o futuro do Brasil. Uma consulta via internet ao catálogo eletrônico da Biblioteca do Congresso, (www.loc.gov), que registra todas as obras comercialmente publicadas nos Estados Unidos e em boa parte do mundo, comprovaria que o livro "An Introduction to Geography", de David Norman, não existe. Consulta adicional a qualquer site de pesquisa na Internet, confirmaria que a suposta obra não passa de invenção. Além disso, poderiam ter usado o bom senso e deduzido que, se o livro existisse, pelo alguns exemplares estariam disponíveis em algum lugar do planeta.A informação segundo a qual tal obra estaria sendo usada nas escolas junior high contém uma pista adicional sobre a falsidade da informação. Essa designação foi abandonada na maior parte dos EUA nos últimos anos e substituída por middle school (sexta, sétima e oitava séries). Finalmente, por mais que os americanos possam cobiçar a Amazônia, é difícil imaginar que uma escola americana adotaria um livro ou um texto repleto de erros e escrito numa língua incompreensível. O governo brasileiro tomou conhecimento dessa nova onda de boatos na Internet sobre a internacionalização da Amazônia. Segundo fonte oficial, a orientação é responder individualmente às centenas de ?denúncias? e pedidos de providência que chegaram ao Palácio do Planalto e ao Itamaraty, mas evitar um pronunciamento público, pois isso apenas valorizaria o que não passa de uma canhestra e rudimentar fraude intelectual. Um diplomata brasileiro disse que os acadêmicos que alimentam teorias conspiratórias sobre a Amazônia fariam mais pela defesa da soberania nacional na região se, além de não espalhar boatos, ?se envolvessem no trabalho de processamento e análise das informações abundantes que o SIVAM começará a produzir sobre a Amazônia dentro em breve e que nós ainda não sabemos como será feito?. O SIVAM, ou Sistema de Vigilância da Amazônia, é o maior investimento público já feito no Brasil. Contratado no início do atual governo a um consórcio de empresas lideradas pela americana Raytheon, o projeto custou US$ 1,4 bilhão, e permitirá um maior conhecimento e controle da vasta região quando for ativado, no ano que vem. Para téoricos da conspiração, fraude não desqualifica mapa ou sua distribuição Danilo Enrico Martuscelli, um pesquisador da Unicamp, negou ser o responsável pela distribuição do mapa fraudulento. "Recebi essa mensagem de um amigo, que, por sua vez, não é a fonte original da mensagem", afirmou ele ao Estado. A possibilidade de se tratar de uma fraude não parece preocupar o pesquisador, que é ou foi bolsita da Fapesp. Segundo ele, isso não seria suficiente para desqualificar o mapa ou sua distribuição. O advogado Carlos T. Haddad, da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo, concorda. Haddad, que repassou o boato a centenas de congressistas pedindo providências, afirmou numa mensagem sobre o tema que ?se os mapas são falsos, se a notícia é falsa, isso não tem a menor importância, pois não se sabe que efeito possa ter causado na situação do Brasil?. Com a mesma desenvoltura com que espalha boatos pela Internet, Haddad sugeriu em mensagem subsequente distribuída a milhares de pessoas que brasileiros interessados em alertar internautas incautos que o livro e o mapa são falsos podem ser agentes da CIA, a agência de espionagem dos EUA. Para ele, não há dúvidas. O suposto livro é a prova de que ?a Amazônia está cercada, sitiada por forças americanas, que garantirão a posse da região a qualquer hora dessas?. Em sua mensagem aos congressistas, Haddad afirmou que o livro inexistente ?explica a ?Operação Colômbia?, as tropas americanas (80 mil homens!) no Suriname, a apropriação da base aérea da FAB de lançamentos (de foguetes) em Alcântara, a intenção dos EUA de colocar um escritório da CIA na tríplice fronteira (Foz do Iguaçu) e a implementação de duas bases militares na Argentina, uma na Patagônia e outra próxima a Buenos Aires?. O advogado da OAB disse que a nação espera ação imediata de seus parlamentares, pede aos cidadãos que repassem a notícia falsa ?a todos os seus conhecidos? e conclama os jornalistas a divulgar ?esse absurdo para que a Nação se levante contra essa violência inominável?. Martuscelli não chegou a tanto. Mas, numa primeira resposta a uma pergunta sobre sua autenticidade, feita por um dos membros da lista que inclui vários professores universitários, o acadêmico admitiu que leva boatos a sério. "Na condição de brasileiro, tenho que me alarmar com qualquer notícia, mesmo que seja boato, referente a qualquer tipo de investida dos imperialistas yankees contra a soberania dos povos latinos-americanos (sic)", afirmou ele em mensagem cheia de erros gramaticais. Na explicação dada ao Estado, Martuscelli disse que, mesmo diante de prova de que o mapa é falso não vai se redimir e pedir desculpas, pois sabe que ?mesmo que esse mapa seja falseador (sic), não se pode esquecer que os governos norte-americanos, ao longo do século XX, praticaram uma ofensiva imperialista pelos quatro cantos do mundo". Martuscelli admitiu que, ao distribuir o mapa falso talvez tenha se precipitado. ?Mas isso não quer dizer que não devemos ficar atentos às investidas do Plano Alca contra a América Latina", afirmou. AlcaO "plano Alca" refere-se à criação de uma Área de Livre Comércio das Américas a partir do 2005. O projeto projeto foi iniciado por Washington mas que é tão impopular entre os políticos dos EUA quanto nos meis acadêmicos brasileiros. A resistência à Alca é um dos obstáculos que o presidente George W. Bush enfrenta no momento para convencer o Congresso americano para aprovar o mandato fast track, que o Executivo necessita para negociar com credibilidade novos acordos comerciais. Sem o fast track, a Alca provavelmente fracassará ? por falta de apoio político nos EUA. Martuscelli não explicou a relação que vê entre a suposta internacionalização da Amazonia e o "plano Alca". Nem o assunto parece estar entre suas preocupações mais imediatas. No momento, seu alvo intelectual é o que ele vê como uma indesejável tendência à moderação do Partido dos Trabalhadores. Segundo informação postada na Internet, em setembro, Martuscelli apresentou projeto de pesquisa ao IFCH da Unicamp com o objetivo de demonstrar como "as pressões da ordem burguesa, expressas pela lógica neoliberal (...), são capazes de condicionar o horizonte do PT, fazendo com que este abandone suas potencialidades revolucionárias."clique aqui para ver o mapa

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.