Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

‘Professor’ de políticos e jornalistas, ex-secretário da Câmara Mozart Vianna morre aos 69 anos

Ao longo dos seus 40 anos de Parlamento, servidor assessorou 12 presidentes da Câmara

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 18h33
Atualizado 08 de junho de 2021 | 11h06

BRASÍLIA – Conhecido como “anjo da guarda” dos deputados, sempre pronto a ajudar os que se perdiam no emaranhado de normas do regimento interno, Mozart Vianna de Paiva foi responsável por assessorar 12 presidentes da Câmara ao longo de seus 40 anos no Congresso. Do extenso e confuso conjunto de leis do Legislativo Mozart sabia capítulos, artigos e entrelinhas de cor e salteado. Estava permanentemente disposto a tirar dúvidas e a explicar detalhes de normas, projetos e votações e tratava todos com a mesma gentileza: de jornalistas iniciantes a presidentes da República. Mozart morreu nesta segunda-feira, 7, aos 69 anos. A causa da morte não foi divulgada.  

“O Congresso Nacional e o Brasil perdem uma figura afável e atenciosa, mas também a pessoa que mais conhece o processo legislativo no nosso País. Conhecendo, como conhece, foi extremamente útil a todos os presidentes da Câmara e a mim, especialmente, nas três vezes que presidi aquela Casa. Em todas as dificuldades que tinha, eu sempre chamava o Mozart”, disse o ex-presidente da República Michel Temer (MDB) ao Estadão/Broadcast.

Além de assessorar Temer quando ele comandou a Câmara, Mozart também o auxiliou na Presidência, despachando do Gabinete Adjunto de Informações de Apoio à Decisão, no terceiro andar do Palácio do Planalto. Cuidava de levantar informações sobre as audiências previstas e projetos que tramitavam no Congresso, entre outras coisas. Mozart também era chamado de “professor”. “Sou um servidor público e estou sempre à disposição”, dizia ele, mesmo quando recebia ligações telefônicas depois da meia-noite.  

“Perdemos o maior exemplo que conheci de servidor público. Dedicado à Câmara, ao interesse do Brasil, ao interesse público. Perdemos um grande exemplo para todos nós”, afirmou o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Apesar de toda a dedicação ao serviço público, Mozart disse ao Estadão, em entrevista publicada em 2016, que queria mesmo era ter sido padre. Guardava com carinho o folder do seminário da Serra da Mantiqueira, onde passou seis anos de sua juventude em regime de internato, dos 12 aos 18 anos, quando saiu para ajudar a família. Depois, casou e teve quatro filhos.

Mineiro de Corinto, Mozart começou a trabalhar na Câmara como datilógrafo, ao passar em um concurso público, em 1975. Em 1984, assumiu o cargo de secretário da Comissão de Redação. A partir de 1991, passou a ser Secretário-Geral da Mesa, posto no qual permaneceu até a aposentadoria como servidor público, em 10 de abril de 2000. Após esse período, ocupou cargo de natureza especial até 2015.

Mozart assessorava em pé os presidentes da Câmara no plenário, horas a fio, até que, depois de 14 anos, ganhou uma cadeira de Severino Cavalcanti, no início de 2005. Foi dona Amélia, mulher de Severino, quem viu a injustiça quando Mozart assessorou a votação que deu a vitória ao deputado pernambucano,  até então rei do baixo clero. O secretário-geral da Mesa, que sofria calado de dores nas costas, agradeceu.

“O Brasil perde um servidor público exemplar. Altamente preparado, dedicado e discreto. Por onde passou, Mozart deixou amigos e admiradores entre os quais me incluo. Me orgulho muito dos vários anos em que trabalhamos juntos. Que Deus possa confortar seus familiares e amigos”, afirmou o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), que presidiu a Câmara de 2001 a 2002.

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