GIULIANO GOMES
GIULIANO GOMES

Professor, a oposição de fato nos Estados

Crise faz com que apenas 7 dos 27 governadores do País tenham conseguido negociar reajustes sem paralisações ou ameaças de greve

PEDRO VENCESLAU, VALMAR HUPSEL FILHO, LILIAN VENTURINI, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2015 | 02h03

A crise econômica que levou o Palácio do Planalto a patrocinar um pacote de medidas impopulares para reduzir gastos e derrubou a popularidade da presidente Dilma Rousseff também está provocando desgaste político na maioria dos governadores do País. A diferença é que, se na capital federal quem dificulta a vida da petista são partidos como PSDB e DEM e os rebeldes peemedebistas que comandam a Câmara e o Senado, nos Estados, onde a oposição parlamentar costuma ser frágil, quem tem acuado os chefes de Executivo são os professores da rede pública.

Maio é o mês que tradicionalmente registra maior tensão entre os sindicatos ligados ao magistério e os governos, por causa da data-base da categoria. Com queda na receita, orçamentos contingenciados para não ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal e cortes de gastos, os Estados endureceram o diálogo. A greve no Paraná, onde uma ação policial deixou cerca de 200 professores e funcionários públicos feridos, no fim de abril, acentuou a radicalização do movimento pelo País.

Levantamento feito pelo Estado com ajuda da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) mostra que em apenas 7 das 27 unidades da Federação os professores e funcionários públicos conseguiram reajustes sem precisar ameaçar ou entrar em greve: Maranhão (governado pelo PC do B), Acre (PT), Ceará (PT), Rio Grande do Norte (PSD), Mato Grosso (PDT), Mato Grosso do Sul (PSDB) e Piauí (PT).

Na outra ponta, quatro Estados têm greves em andamento: Pará, Paraná e São Paulo, sob gestão do PSDB, e Santa Catarina (PSD). Em Pernambuco (PSB), a paralisação está suspensa até o dia 21, mas pode ser retomada. Em Sergipe (PMDB), há um indicativo de greve para quarta-feira. Nos demais Estados, as negociações estão em andamento, mas servidores não descartam cruzar os braços.

"O processo está bem mais radicalizado este ano. A categoria aprendeu com os movimentos de rua. A situação no Paraná ajudou a criar esse ambiente", diz a professora de biologia Marta Vanelli, secretária-geral da CNTE.

Ligações partidárias. Existem no Brasil 29 sindicatos que representam os servidores públicos estaduais ligados à educação - em 25 Estados, professores e funcionários estão unidos numa mesma entidade, enquanto no Distrito Federal e em São Paulo há sindicatos distintos para essas duas categorias.

O perfil político do comando dessas entidades mostra o predomínio de PT e PC do B, tradicionalmente ligados ao funcionalismo público e que hoje formam o núcleo mais fiel de apoio a Dilma no Congresso. Dos 29 sindicatos do País, 21 são filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e comandados por dirigentes petistas e quatro à Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), vinculada ao PC do B. Outros quatro são ligados à Intersindical, próxima do PSOL.

Terceirização. "Cabe à CNTE o papel de unificar o discurso nacionalmente e promover a interação entre os movimentos", diz o professor de matemática Milton Canuto de Almeida, vice-presidente da entidade e militante da Democracia Socialista (DS), correntes à esquerda na política interna do PT. Para ele, outro fator que ajudou a fortalecer a atuação dos sindicatos foi a regularização da mão de obra terceirizada aprovada pela Câmara. "A terceirização ajudou nesse processo."

O predomínio do PT no comando dos sindicatos ajuda a entender por que o PSDB é o partido mais afetado por greves nos Estados que governa, ainda que em diferentes intensidades - a crise no governo do paranaense Beto Richa, que derrubou os secretários da Educação e da Segurança Pública, é de longe a mais grave. Mas isso não deixa os petistas imunes.

Em Minas, os professores foram os responsáveis pelo primeiro constrangimento público do governador Fernando Pimentel. O petista decidiu abrir ao público pela primeira vez em 12 anos a solenidade de entrega da medalha da Inconfidência, em Ouro Preto. Resultado: foi vaiado por 2.600 professores.

Os educadores exigem equiparação com o piso nacional, que é de R$ 1.917. Pimentel tenta evitar uma greve na rede mineira. Para isso, negocia com a presidente do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-Ute), Beatriz Cerqueira. Ela é filiada ao PT e presidente da CUT mineira.

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