Procuradores ouvem médico que limpou nariz de Jango

Os procuradores da República Suzete Bragagnolo e André Raupp consultaram nesta terça-feira o médico Odil Rubim Pereira, em São Borja, no oeste do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina, em busca de subsídios para o inquérito civil público que investiga a morte do ex-presidente João Goulart, que aconteceu em 6 de dezembro de 1976 em Mercedes, na Argentina.

ELDER OGLIARI, Agência Estado

19 de março de 2013 | 19h45

"São informações que corroboram alguns dados já conhecidos", disse Suzete, admitindo que não imaginava encontrar algo inédito na reunião, mas algumas confirmações. Pereira teve acesso ao cadáver de Goulart para limpar secreções do nariz, no dia do enterro, na cidade gaúcha, mas ressalva que isso não é suficiente para definir qual foi a causa da morte. "Ele também disse que Jango (apelido do ex-presidente) já sabia que era monitorado (pelos serviços de inteligência)", relata a procuradora da República.

As informações que está colhendo nesta fase do inquérito podem levar o Ministério Público Federal a pedir a exumação dos restos mortais do ex-presidente, procedimento admitido também pela Secretaria Especial de Direitos Humanos e pela Comissão Nacional da Verdade. Suzete adverte, no entanto, que ainda vai analisar informações que recebeu da Polícia Federal para se inteirar mais sobre a eficácia dos reagentes atuais detectarem substâncias químicas usadas naquele tempo. "Queremos esgotar as possibilidades de investigação e se houver algo possível, vamos fazer", afirma.

A família Goulart autorizou a autópsia desde que haja certeza de que será conclusiva. Para isso, exige que sejam feitas consultas prévias aos peritos brasileiros para saber se estão dotados de equipamentos e técnicas capazes de detectar o uso dos venenos capazes de provocar uma parada cardíaca na década de 70 do século passado e, em caso negativo, fazer consulta semelhante a peritos internacionais. Estabelece, ainda, que o trabalho seja acompanhado por assistentes indicados pela família.

Nesta segunda-feira (18), durante audiência pública da Comissão Nacional da Verdade, em Porto Alegre, os participantes que falaram do assunto foram unânimes ao defender a investigação. "Há indicações muito claras de que o presidente João Goulart tenha sido assassinado", disse a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, instigando a comissão a esclarecer o caso. Ao deixar o auditório da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), logo depois do ato de abertura, a ministra admitiu a possibilidade de exumação. "Se for resolver alguma coisa, deve-se fazer, com consentimento familiar." Integrante do grupo que trata da Operação Condor na Comissão, Rosa Cardoso disse que "há um conjunto de indícios muito concludentes" de que Goulart foi vítima de operação repressiva. Destacou ainda que, como criminalista, já viu o Judiciário se pronunciar "com indícios concludentes menores que esses".

O inquérito civil público que investiga a morte do ex-presidente foi aberto em 2008 e chegou a ser arquivado. Mas foi reaberto e entregue à atual equipe pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão no final do ano passado. A versão oficial de que João Goulart morreu de enfarte sempre foi motivo de controvérsias. A tese de que o ex-presidente, que sofria de problemas cardíacos, foi envenenado ganhou força pelos depoimentos do ex-funcionário do serviço de inteligência uruguaio Mario Neira Barreiro. Em 2000, a uma comissão externa da Câmara dos Deputados, em 2002 ao jornal uruguaio La Republica e em 2008 à Polícia Federal, ele afirmou que participava do grupo que seguia os passos de Goulart no Uruguai e narrou uma operação de substituição de cápsulas de remédio do ex-presidente por de veneno, que teria sido feita a pedido do governo brasileiro.

Como estava preso até janeiro deste ano no Rio Grande do Sul por roubo e tráfico de armas, Barreiro não obteve muito crédito. Mas algumas histórias que contou acabaram se mostrando parecidas que o que descreveram documentos obtidos posteriormente, citados pelo Instituto João Goulart. Uma delas é a de que o delegado Sérgio Paranhos Fleury viajava ao Uruguai à época da morte do ex-presidente. Outra surpreendeu o filho de Jango, João Vicente Goulart, por descrever um pequeno acidente de carro que só era de conhecimento da família.

Investigação no exterior

O Grupo de Trabalho da Operação Condor da Comissão Nacional da Verdade (CNV) vai investigar o desaparecimento de brasileiros em países do sul do continente durante os regimes militares dos anos 70 do século passado. "São 17 casos em exame, nem todos ainda comprovadamente vítimas da coordenação repressiva da Condor", informa, em nota divulgada nesta terça-feira. "O esclarecimento sobre o destino final dos brasileiros, incluindo nomes e órgãos responsáveis por suas mortes, e a busca de informações sobre o paradeiro de seus restos mortais é um compromisso que tem a CNV para com o País e familiares dos desaparecidos", afirma o texto.

Os desaparecidos na Argentina incluídos na lista são Edmur Péricles Camargo, Joaquim Pires Cerveira, João Batista Rita Pereda, Sidney Fix Marques dos Santos, Francisco Tenório Cerqueira Júnior, Maria Regina Marcondes Pinto, Jorge Alberto Basso, Sérgio Fernando Tula Silberberg, Walter Kenneth Nelson Fleury, Roberto Rascado Rodriguez e Luiz Renato do Lago Faria. No Chile são, Jane Vanini, Luis Carlos de Almeida, Nelson de Souza Kohl, Túlio Roberto Cardoso Quintiliano e Wânio José de Matos. Na Bolívia, desapareceu Luiz Renato Pires de Almeida.

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