LUIS MACEDO/AGÊNCIA CÂMARA
LUIS MACEDO/AGÊNCIA CÂMARA

Procuradores debatem ação contra colega

Em chat, eles discutem se autocrítica não deveria ser mais explícita e se a detenção se justificava

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2017 | 05h00

Na rede interna em que trocam ideias, informações e figurinhas, procuradores da República de todo o País discutem, desde 19 de maio, o day after das delações da JBS, a prisão do colega Ângelo Goulart Villela – que era respeitado integrante da poderosa categoria, integrante da diretoria da Associação Nacional dos Procuradores da República.

Villela foi preso na manhã da quinta, 18, acusado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de vender-se aos irmãos Batista, donos da JBS, informações internas aos investigados pelo MPF, pela soma de R$ 50 mil. No mesmo dia, depois da prisão, o local de trabalho de Villela – a Vice-Procuradoria-Geral Eleitoral – sofreu mandado de busca e apreensão. Seu cumprimento foi acompanhado pelo vice-procurador-geral eleitoral, Nicolao Dino, e pela subprocuradora da República Cláudia Sampaio Marques.

Nicolao Dino, como se sabe, é um declarado candidato a candidato à sucessão de Rodrigo Janot, cujo segundo e talvez último mandato termina em setembro. Mal o colega foi preso (caso único na corporação), manifestou, oficialmente, sua “indignação com seu envolvimento em atividades ilícitas apuradas em nova fase da Lava Jato”. Segundo a nota do vice-procurador-geral eleitoral, “os indícios apontam desvio de conduta em outra atribuição de Villela, na força-tarefa da Operação Greenfield, conduzida pela Procuradoria da República no Distrito Federal”.

“Essa conduta desviada não se coaduna com os princípios defendidos pelo Ministério Público Federal”, afirmou. A nota da Associação Nacional dos Procuradores da República – que já afastou Villela da diretoria – é mais comedida: “Como em qualquer investigação, não cabem julgamentos precipitados, e sim as medidas legais e o curso de investigações”, diz.

Na rede interna, a conversa mostrava que os procuradores já tinham lido as peças do inquérito 4489, do Supremo Tribunal Federal, relatado pelo ministro Edson Fachin. É aquele em que Janot acusa Villela, Joesley Batista e o advogado Willler Tomaz. São 51 páginas. Trazem o pedido de Janot, os depoimentos de Batista e do seu advogado Francisco de Assis, anexos de informações internas repassadas por Villela, e a decisão de Fachin.

Já divulgados no essencial, os documentos relatam, na versão dos depoentes, e de Janot, a cooptação do procurador Villela, há não muito um entusiasmado defensor do projeto do MPF das “dez medidas contra a corrupção”, menina dos olhos da força-tarefa da operação Lava Jato.

Em um chat interno dos procuradores, do dia 19, nomeado como “mea-culpa”, os procuradores discutiram, sem conclusão, se o PGR deveria fazer uma autocrítica mais explícita – em março, afinal, Janot indicara Villela para integrar a força-tarefa das operações Greenfield, Sépsis e Cui Bono. Ponderaram, também, se a prisão se justificava, questionando a falta de prova sobre o recebimento da propina. O embasamento, neste ponto, era o depoimento do advogado de Joesley Batista, Francisco de Assis – onde aliás se fica sabendo que “o ministro Pertence” estava atuando como advogado da JBS. Vem a ser o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Sepúlveda Pertence.

Sobre a propina de R$ 50 mil o depoimento de Assis tem duas afirmações diferentes. Na primeira, diz ter perguntado ao advogado Willer Tomaz (que cooptou Villela, ou vice-versa) “se havia mesmo remuneração para o procurador, o que foi confirmado, no valor de R$ 50 mil”. Na segunda afirmação, Assis diz: “que não lembra bem, agora, se o Tomaz falou de valores para ele diretamente sobre os R$ 50 mil, mas confirma que sabe do tema, talvez por ter ouvido do Joesley”.

Villela entrou na Procuradoria-Geral Eleitoral na gestão do procurador Eugênio Aragão – bem mais tarde ministro da Justiça do governo Dilma. Amigos pessoais e de longa data, Aragão e Rodrigo Janot tornaram-se, mais recentemente, inimigos figadais.

Acusações de Aragão ao PGR foram recentemente lembradas pelo ministro Gilmar Mendes, do STF. Em entrevista à revista Veja, Gilmar, ao desancar Janot, disse: “Se tivéssemos de julgar Janot pelo que disse um amigo dele, o subprocurador Eugênio Aragão, acho que faríamos dele um juízo quase que vil, muito baixo”.

Acertar Villela, pedindo a prisão, seria uma retaliação de Janot contra Aragão (e Gilmar, de tabela)? O subprocurador Aragão não fala sobre a questão. Villela ainda não se manifestou, nem seus advogados. Quando o fizerem, trarão mais lenha para o chat da rede de procuradores da República.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.