Procurador pede investigação de empresa laranja

Gráfica teria recebido R$ 1,4 milhão de estatal, mas, segundo a PF, fez material para campanha de Azeredo

Sônia Filgueiras, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Junto com a denúncia que descreve o esquema de financiamento ilegal da campanha do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) ao governo de Minas Gerais, em 1998, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, recomenda expressamente que o Ministério Público de Minas investigue o uso de empresa laranja no esquema de desvio de verba pública da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Os documentos que recheiam os arquivos oficiais da estatal e a contabilidade formal das empresas de Marcos Valério dizem que a laranja, a Graffar Editora Gráfica Ltda., recebeu sozinha 87% do R$ 1,6 milhão referente à produção de uma campanha publicitária. A Graffar recebeu, segundo a papelada apreendida pela Polícia Federal, R$ 1,4 milhão para produzir 1,5 milhão de revistas, 500 mil cartazes e 800 mil cartilhas para a campanha Uso Eficiente de Energia, encomendada pela Cemig à agência de publicidade SMPB, de Valério. A empresa teria sido subcontratada para os serviços de impressão.Mas a Polícia Federal afirma que a empresa não teria produzido um único folder para a estatal. Conforme as investigações, a Graffar produziu material de propaganda para a campanha de Azeredo. O procurador cita o caso porque, para ele, há "uma fartura de provas" sobre os envolvidos. Como nenhum deles tem direito a foro privilegiado e eventuais processos são de alçada da Justiça Estadual, Souza pediu ao Supremo Tribunal Federal que remeta os documentos aos promotores mineiros.A PF verificou que a Graffar contou com no máximo 20 funcionários nos momentos de encomendas mais intensas, durante a campanha de Azeredo. Também apontou que ela pertencia, na prática, a Cleiton Melo de Almeida, amigo e braço direito de Cláudio Mourão, então coordenador financeiro do comitê do senador. Em depoimentos, Clauber Miranda, um dos dois sócios formais da Graffar, admitiu que emprestou seu nome para formar a empresa a pedido de Cleonice Nunes, irmã de Cleiton. Na versão de Cleonice, o amigo e auxiliar de Mourão tinha restrições cadastrais e não podia abrir a empresa em seu nome. Em depoimento à PF, consultado pela reportagem, Mourão disse que só conheceu o dono da gráfica em 2004, seis anos depois da suposta montagem do esquema. Cleiton confirma a versão, mas diz que ambos se conheceram em 2003. No exame dos sigilos bancários, a Polícia Federal verificou que a Graffar não teria recebido um único centavo em sua conta corrente proveniente da estatal mineira. A quebra dos sigilos bancários indicaram que os rendimentos da Graffar eram, de fato, originários das encomendas feitas pelo comitê eleitoral do senador tucano. Ao rastrear os caminhos financeiros do R$ 1,6 milhão pago pela Cemig à SMPB, a PF descobriu esquemas de financiamentos de aliados de Azeredo na campanha de 1998. Embora do ponto de vista eleitoral eventuais crimes estejam prescritos, poderá haver conseqüências cíveis ou criminais.

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