Procurador-geral do DF admite reunião com Arruda

Leonardo Bandarra, chefe do Ministério Público do Distrito Federal, concedeu entrevista exclusiva ao Estado

Felipe Recondo e Leandro Colon, do O Estado de S. Paulo

25 de março de 2010 | 08h34

O procurador-geral de Justiça do Distrito Federal, Leonardo Bandarra, admitiu, em entrevista ao Estado, que se reuniu com José Roberto Arruda na casa da promotora Deborah Guerner nas eleições de 2006. Delator do esquema de corrupção no DF, Durval Barbosa disse, em depoimento ao Ministério Público em 11 de dezembro passado, que Bandarra acertou, nesta reunião com Arruda, que não atrapalharia os planos do governo, entre eles o de renovar, sem licitação, os milionários contratos de limpeza urbana. Segundo Barbosa, Bandarra teria recebido R$ 1,6 milhão pelo acordo. Ontem, Bandarra confirmou o encontro citado por Barbosa, mas negou o teor divulgado pelo delator. "Foram contatos políticos. Não houve nenhuma combinação de nenhum benefício", afirmou.

 

Segundo Durval Barbosa, a promotora Deborah Guerner era quem negociava os acordos em nome de Bandarra. Desde então, é investigada pela Justiça. Ao Estado, Bandarra afirmou conhecer a promotora há mais de 10 anos, mas desmentiu qualquer negociação com Barbosa. Ontem, o Estado revelou que o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) começou a intervir no Ministério Público do DF para acelerar as investigações contra Bandarra. Integrantes do órgão de controle externo do Ministério Público avaliam que a Corregedoria do Ministério Público local está analisando o caso em ritmo lento demais, protegendo o chefe dos procuradores e promotores de Brasília.

 

O sr. participou de alguma reunião com o governador Arruda na casa da promotora Débora Guerner, como disse Durval Barbosa?

 

Ele tem que provar esses fatos. Esses fatos não aconteceram. São fatos mentirosos. Ele provou alguma coisa sobre isso?

 

Mas o sr. participou na casa da Débora Guerner de alguma reunião com a presença do governador Arruda?

 

Junto com outros membros do Ministério Público antes de ele (Arruda) ser governador. Antes de ele assumir o mandato.

 

Algum assunto específico?

 

Assuntos ainda da época de campanha. Nem sei se eu era procurador-geral. Não me lembro. O importante é o seguinte: não foi nenhuma reunião secreta, não houve nenhuma combinação de nenhum benefício. Foram contatos políticos. Como tive com todos os outros candidatos até para poder ter a nomeação.

 

O sr. participou de reuniões na casa do governador em Águas Claras?

 

O governador tem em Águas Claras (cidade satélite de Brasília) um escritório de trabalho e lá eu já fui várias vezes com membros do MP para tratar de assuntos de trabalho.

 

O sr. é amigo do Arruda?

 

Eu conheci o governador Arruda institucionalmente. E institucionalmente mantive essa relação com ele. Nunca tive intimidade, não sou amigo pessoal.

 

Institucionalmente como?

 

Eu o conheci como procurador e ele, governador. E trabalhamos assim.

 

O sr. havia dito que encontrou com ele antes da campanha...

 

Ou foi como pretendente a governador, mas não tenho amizade íntima.

 

Parte do que Durval Barbosa falou tem tido guarida nas investigações da Procuradoria-Geral da República. Como vê isso?

 

Os fatos que ele aponta têm que ser investigados. Uma coisa eu posso ter certeza: eu não devo nada a ninguém. E quanto a isso ele está completamente enganado.

 

O sr. recebeu dinheiro do governador Arruda para um acordo em torno de contratos com o lixo?

 

Isso é ridículo. Como vou firmar um acordo com o governador Arruda se os membros do Ministério Público têm total independência? E depois, contra fato não há argumento. Quem fez a investigação da Caixa de Pandora foi o meu Ministério Público, pelos meus assessores.

 

A imagem do Ministério Público não fica arranhada com essas suspeitas?

 

O Ministério Público tem que ser eficiente, agir dentro da lei e de forma independente. É isso que está sendo feito. A imagem que tenho é essa. O Ministério Público em Brasília tem que servir de referência para o Brasil inteiro.

 

O CNMP diz que a Corregedoria não o está investigando como deveria.

 

Essa é uma opinião do Conselho e há de se respeitar. Dentro do Ministério Público as atribuições são distribuídas pela Constituição Federal. Cabem à Corregedoria as investigações. E a Corregedoria tem autonomia e independência, sem qualquer interferência da procuradoria-geral.

 

Mas o sr. vê algum problema de ser investigado pelo CNMP?

 

Não tenho problema de ser investigado por quem quer que seja. Até hoje não há um fato, há uma alegação. A Corregedoria é tão independente quanto o Conselho Nacional do Ministério Público.

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