RAFAEL ARBEX|ESTADÃO CONTEÚDO
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Procurador diz que Lava Jato traz 'tristeza' nos que acreditavam no projeto do PT

'Não podemos permitir que o projeto venha junto com a corrupção', afirmou Carlos Fernando dos Santos Lima, em palestra em São Paulo

Ana Fernandes, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2016 | 10h34

São Paulo - O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, integrante da força-tarefa da operação Lava Jato, disse nesta quarta-feira, 30, que um dos efeitos da operação é uma "tristeza" das pessoas que acreditavam no projeto político do PT. "Tem muita gente que está triste pela falência de um projeto, que era bonito, de inclusão social. Infelizmente, veio junto de outro projeto, de poder. Não podemos permitir que o projeto venha junto com a corrupção", afirmou em palestra a empresários em São Paulo.

Ele disse ainda se considerar uma pessoa inclinada à esquerda e já ter votado em quase todos os últimos presidentes brasileiros, citando Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, além de Leonel Brizola (PDT), que foi derrotado na disputa de 1989, quando foi eleito Fernando Collor. Segundo o procurador, o problema da corrupção no Brasil não é pessoal ou de um partido, mas do sistema que é alimentado pelos desvios de conduta.

"Votei em Brizola, Lula, Fernando Henrique, a questão não são os nomes, a questão é que o sistema, que é por natureza corruptor", afirmou em palestra realizada pela Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos, Amcham. "Sempre fui uma pessoa mais à esquerda, depois que estudei nos Estados Unidos mudei um pouco", afirmou ao alegar que no Brasil o sistema é "conivente com a corrupção".

Segundo Lima, a solução é mexer no cerne do sistema político e o custo dele no Brasil. Como fazer isso, no entanto, é um assunto para o debate, afirma. "A solução é baixar essa febre que nos acomete, diminuir o custo das campanhas, da política e, vou dizer mais, diminuir a personalização da política. Como se fazer isso, aí a discussão vai para voto distrital, distrital misto, cláusula de barreira. Precisamos de mudança, mas essa mudança ainda vai ser discutida e testada."

"O que me preocupa é a verificação de que a corrupção está entranhada no nosso sistema econômico e político. Não vou dizer cultural, porque não sou daqueles que vai chamar brasileiro de Macunaíma", disse, ao defender que o caso brasileiro tem solução. Para ele a "esperteza" brasileira atingiu esferas sociais que não precisariam disso para viver, o que é preocupante. Ele associa esse fenômeno ao sistema de coalizão política, que tem na distribuição de cargos a partidos uma das formas de sustentação do governo.

"O primeiro diagnóstico que me causa muita tristeza é que a democracia brasileira nunca foi efetiva, seja pelo coronelismo da República Velha, seja pelo abuso do poder econômico na democracia atual. Temos um sistema político partidário extremamente caro, eleições que demandam muito dinheiro

temos sistema partidário que permite multiplicação de partidos para obtenção de benesses", afirmou.

Ele relatou ter se chocado com a informação que ouviu no rádio pela manhã de que o governo Dilma Rousseff teria agora 2 mil cargos para redistribuir após o desembarque do PMDB. "Nosso sistema de coalizão exige essa distribuição de cargos, que é conscientemente dirigida à corrupção."

À plateia de empresários e pessoas ligadas a setores de compliance, o procurador defendeu o projeto de lei elaborado com apoio do Ministério Público Federal e que foi enviado para discussão no Congresso Nacional, de um pacote com 10 medidas contra a corrupção. Entre as medidas, por exemplo, há a proposta de limitar recursos judiciais que protelam condenações.

Ainda sobre a operação, o procurador brincou que preferia estar "em casa, lendo" em vez de estar recebendo tanta atenção e admitiu também que os integrantes da força-tarefa também estão sujeitos a erros. Ele argumentou, contudo, que é importante a operação existir para combater a corrupção no País.

Empresas. O procurador disse ainda que o sistema brasileiro se tornou injusto ao eleger entre as empresas as chamadas "campeãs nacionais" que têm acesso privilegiado a mecanismos de financiamento no BNDES, por exemplo. "Na Lava Jato, verificamos que há empresas que têm políticos cativos. Isso é muito injusto com as empresas que não são campeãs nacionais", afirmou.

"Além de tudo, o mercado é muito influenciado pelas práticas corruptas, pois o grande consumidor brasileiro ainda é o Estado. Junta-se aqui a vontade de comer dos políticos com a fome das empresas", disse Lima. 

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