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Procura-se: uma oposição ao prefeito

Blocos ‘independentes’ surgem periodicamente não para atrapalhar a vida do governo, mas para facilitar a do Legislativo

Iuri Pitta, de O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2012 | 16h00

Na história recente do Legislativo de São Paulo, situação e oposição são palavras que, se não caíram em desuso, não explicam por completo as relações da Prefeitura com a Câmara e, principalmente, entre os próprios vereadores. O que vale mais é o chamado "espírito de corpo" e os consequentes episódios de traição e fidelidade entre os pares.

A eleição de 2012 caminha para ser a terceira disputa consecutiva em que essas duas palavras estão na ordem do dia no parlamento paulistano. Na década passada, a hegemonia do malufismo nas eleições de 1992 e 1996 deu a Paulo Maluf e Celso Pitta ampla maioria, sustentada pelo loteamento das antigas Administrações Regionais (hoje Subprefeituras).

A disputa por espaço e poder - incluindo a presidência da Câmara - ocorria dentro da base governista. Aos principais partidos de oposição, PT e PSDB, restava tentar acordos para respeitar a proporção das bancadas na composição da Mesa Diretora e investigar denúncias que, em 2000, levariam à derrocada de Maluf e de seus aliados.

Um dos derrotados nas urnas em 2000 foi o então decano Brasil Vita, comandante da "tropa de choque" de Pitta. Orador habilidoso, conhecedor da Câmara como poucos, sabia que a fidelidade ou a traição de um colega de plenário estava sujeita ao raio de ação do Executivo. Certa vez, Vita definiu seus pares assim: "Todos os vereadores são ecumênicos. Qualquer prefeito serve, desde que se vote nele".

Dos últimos prefeitos, ninguém soube transformar esse raciocínio em prática melhor que Gilberto Kassab. Ex-vereador contemporâneo de Vita, o prefeito que criou o PSD, quarta maior bancada na Câmara dos Deputados e segunda no Legislativo paulistano, nunca teve dificuldade para fazer acordos com os vereadores. Com isso, Kassab encontra pouca resistência na Câmara - só o PT está na oposição, e sem fazer o barulho dos anos 1990 - e conseguiu reduzir a influência e o tamanho do centrão, grupo que impôs a seu padrinho político, José Serra, uma derrota logo no primeiro dia à frente da Prefeitura, em 2005.

A origem. Naquele 1.º de janeiro, um grupo de 15 vereadores emplacou o então tucano Roberto Tripoli (hoje no PV e líder do governo Kassab) como presidente da Câmara, derrotando o candidato de Serra, Ricardo Montoro (PSDB). Até a antevéspera, o centrão tinha 17 integrantes. Por volta das 19 horas de 30 de dezembro, dois vereadores fiéis à Igreja Universal do Reino de Deus avisaram o grupo que foram ordenados a apoiar o candidato do governo eleito. Até hoje, a palavra "traição" é das mais leves quando o episódio é recontado.

O centrão foi criado três dias após o primeiro turno de 2004. Vereadores de quatro siglas (PTB, PMDB, PP e PL, hoje PR) decidiram formar um grupo para negociar com mais força com o futuro governo, fosse ele chefiado por Serra ou Marta Suplicy (PT). Muitos deles já votavam com a petista, mas o espírito de corpo do Legislativo falou mais alto. Para eleger o presidente da Câmara, abriram mão da candidatura de Celso Jatene (PTB) e lançaram Tripoli. Venceram por 28 votos a 26, com apoio de 12 petistas.

A crise com a derrota de Montoro foi superada em poucos dias. O centrão atuou como fiel da balança no governo Serra, mas sem criar graves problemas ao prefeito. No ano seguinte, Kassab assumiu a Prefeitura e as negociações com a Câmara. Um dos líderes do centrão, Antonio Carlos Rodrigues (PR), ficou quatro anos no comando da Casa. No fim de 2010, o prefeito viu a chance de reduzir o poder do grupo: atraiu os vereadores Antonio Goulart (ex-PMDB, hoje no PSD) e José Olímpio (hoje deputado federal pelo PP) e fez de José Police Neto (PSD) o presidente do Legislativo. A disputa paralisou as votações por dois meses, motivou ameaças, agressões e, como de costume, acusações de traição.

A atual disputa para prefeito deu novo ânimo ao núcleo do centrão. A avaliação é que, com uma dezena de vereadores, seria possível criar um grupo menos sujeito a "traições" e com força para negociar com o futuro prefeito, seja ele do PSDB, PT ou PRB. Dos três favoritos na disputa, Celso Russomanno é o candidato cuja coligação deve eleger menos vereadores - e, por isso, mais dependente de acordos com outras siglas. A um mês do primeiro turno, a maioria dos vereadores está concentrada em garantir a reeleição - mas já há quem tenha planos para os dias seguintes ao 7 de outubro.

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