Problemas de saúde consomem até 20% da vida dos brasileiros

Entre 15% e 20% dos anos de vida de um brasileiro são desperdiçados por causa das condições precárias de saúde. A avaliação é da Organização Mundial da Saúde (OMS), que ontem publicou seu relatório anual e que indicou que, em média, um brasileiro vive com saúde apenas 56,7 anos. De acordo com a agência da ONU, apesar da média no Brasil ter subido desde o ano 2000, quando o País apresentou um índice de 56,3, a perspectiva de ter uma vida saudável no Brasil ainda é inferior a de países como a Argélia, Albânia, Bósnia, Colômbia e equivale aos índices apresentados no Irã e na Rússia.Por pressão do Brasil, o relatório de saúde da OMS não estabelece um ranking dos países. A mudança ocorreu depois de o relatório de 2000 ter colocado o Brasil na 125.ª posição entre 191 países. O Brasil acusava a OMS de estabelecer "padrões nórdicos" para avaliar o sistema de saúde pública. Pontos como higiene e qualidade do atendimento nos hospitais públicos estavam entre os critérios questionados pelos países.Além da eliminação do ranking, o Brasil e outros países também reivindicaram que a OMS enviasse os resultados de seus estudos 15 dias antes da publicação do relatório para que os governos pudessem dar seu parecer. Mas mesmo sem o ranking, o governo brasileiro ficou insatisfeito com a nova metodologia e a OMS foi obrigada a mencionar que os dados publicados ontem não foram reconhecidos pelo Brasil. Apenas outros cinco países não reconhecem os dados da OMS.Segundo a agência da ONU, a expectativa de vida no Brasil é de 68,7 anos, sendo que para a população masculina o índice é de 65,5 anos. Já para as mulheres, a expectativa é de 72 anos. Em relação aos dados de 2000, um homem no Brasil ganhou um ano de vida. Mas pelo novo método, a OMS calcula não apenas o número de anos vividos e sim o número de anos que uma pessoa vive em boas condições de saúde. Segundo especialistas, esse índice acaba medindo a qualidade dos serviços de saúde de um país.O resultado para o Brasil é que cerca de 20% dos anos vividos por um homem são passados em condições precárias de saúde. Para as mulheres, o índice é de 15%. Por este cálculo, o país onde se vive com mais saúde é o Japão, com 73,6 anos. No lado oposto da lista está Serra Leoa, com a expectativa de vida saudável de apenas 26,5 anos. O relatório da OMS ainda revela que 47 meninos a cada mil morrem no Brasil antes dos cinco anos de idade. Entre as meninas, 40 a cada mil não chegam aos cinco anos.A OMS aponta que os gastos no setor de saúde aumentaram entre 1995 e 2000 no Brasil. Em 1995, 7,2% do PIB era destinado ao setor de saúde. Em 2000, a taxa chegou a 8,3%. O problema, segundo os dados da OMS, é que o aumento foi gerado por causa do crescimento dos gastos privados, que passaram de 57,3% do total em 1995 para 59,2% em 2000. Já os gastos públicos com a saúde caíram de 42,7% para 40,8% nos período analisado. O dado contrasta com o da Dinamarca, cujo governo arca com 82% dos gastos totais do país com saúde. Na Alemanha, a taxa é de 75% e em Luxemburgo, mais de 90% dos gastos no setor são feitos pelo governo. ObesidadeA pesquisa revela ainda dados surpreendentes sobre as diferenças sociais. Enquanto existem 170 milhões de pessoas no mundo passando fome e 3,4 milhões de crianças morrendo por ano por falta de alimentos nos países pobres, cerca de 300 milhões de pessoas são clinicamente obesas, mais de 1 bilhão está acima do peso considerado ideal para a saúde e 500 mil pessoas morrem por ano apenas nos países ricos por doenças relacionadas à obesidade. Segundo a entidade, vinte fatores de risco são responsáveis por 47% das mortes e doenças no mundo. "A população mundial está vivendo perigosamente", afirma um especialista da OMS. Os principais fatores de risco são desnutrição, sexo sem proteção, pressão alta, consumo de cigarro e álcool, falta de saneamento básico, falta de ferro, poluição do ar, colesterol e obesidade. Nos países pobres, 30% das doenças são geradas por menos de cinco desses fatores. Só a desnutrição atinge 27% das crianças até cinco anos de idade. O sexo sem preservativo é outro fator de risco que tem repercussões mais sérias entre os países pobres e gera 2,9 milhões de mortos por ano, a maioria nos países em desenvolvimento. A aids já é a quarta maior causa de mortes no mundo e 40 milhões de pessoas estão infectadas pelo vírus, 70% delas na África.A falta de saneamento básico é outro risco à saúde das populações pobres. 1,7 milhão de pessoas, quase todas nos países em desenvolvimento, morrem por ano por causa da falta de água e esgoto tratado. Os riscos para a saúde da população dos países desenvolvidos são outros. Um terço das doenças nessas regiões do mundo são geradas pelo consumo de tabaco e álcool, por pressão alta, colesterol e obesidade. Juntos, colesterol, cigarro, álcool e pressão alta causam 18 milhões de mortes por ano. Só nos Estados Unidos e Canadá, a obesidade mata 220 mil pessoas por ano. Os especialistas dizem que o relatório mostra o estilo de vida das pessoas hoje no mundo, que estão, em geral, vivendo de forma perigosa, ou por não ter escolha, nos casos dos países pobres, ou por fazer escolhas erradas.

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