Clarissa Thomé/Estadão
Clarissa Thomé/Estadão

Prisão de Cabral é comemorada com fogos, ritual indígena e até bloco de carnaval

Outros que se sentiram prejudicados pelo político também comemoram

Clarissa Thomé / RIO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2016 | 22h04

Ritual indígena, queima de fogos e até bloco de carnaval. A prisão do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), suspeito de chefiar “organização criminosa” para desvio de dinheiro público, foi intensamente comemorada por parte daqueles que se sentiram prejudicados pelo mandato do peemedebista.

Pela manhã, vizinhos do ex-governador foram para a porta do prédio de Cabral, no Leblon, zona sul, quando os policiais ainda estavam na residência. “Ladrão”, gritavam. A polícia lançou spray de pimenta para dispersá-los.

Em frente à Polícia Federal, para onde Cabral foi levado, dois indígenas se movimentavam em círculo, caras pintadas e chocalhos nas mãos. “Eles mexeram com nossos antepassados. Chegou a nossa vingança”, disse o historiador Micael Baré-Maué, de 42 anos.

Ele era um dos moradores do assentamento que ficou conhecido como Aldeia Maracanã, instalado no antigo Museu do Índio. O local seria demolido para as obras do entorno do Estádio do Maracanã para a Copa de 2014. Diante da resistência dos indígenas, o governo desistiu da demolição do prédio, mas os expulsou dali em março de 2013. “Cabral foi nosso algoz. Fizemos um ritual da purificação, que pune quem nos fez mal, e está caindo um a um: (o empresário) Eike Batista, a (presidente cassada) Dilma (Rousseff), agora o Cabral”, disse Baré-Maué.

Fogos. Bombeiros também foram para a porta da PF. Em 2012, em meio a uma das maiores mobilizações da categoria por melhores condições de trabalho, Cabral demitiu 14 e chegou a prender 439 – lideranças foram levadas para o presídio de segurança máxima de Bangu 1. O subtenente Valdelei Duarte, de 56 anos, um dos exonerados, fez uma queima de fogos em frente à PF. Por um ano e cinco meses, disse ter vivido de doações até ser anistiado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). “Você chamou bombeiro de vândalo, médico de vagabundo. Vagabundo é você, Cabral. Você e sua gangue. Fiz essa promessa que eu viria aqui se você fosse preso”, comemorou.

Três deles, na porta da PF, colocaram guardanapos na cabeça, em alusão ao episódio em que Cabral, seus secretários e empreiteiros fizeram juntos uma viagem a Paris. “Esse projeto de austeridade que o governador Fernando Pezão está implantando tem dedo do Cabral. Eles faliram o Estado juntos. Pezão devia estar preso também”, disse Duarte.

O desempregado Edson Rosa, de 47 anos, levou seus cartazes para a PF. “Je suis Sérgio Cabral na cadeia já”, dizia. Ele chegou a participar do Ocupa Cabral, em que manifestantes acamparam em frente à casa do então governador, em 2013.

Pelas redes sociais, foi convocado um carnaval fora de época para comemorar a prisão – o CarnaCabral.

Até mesmo o ex-governador Anthony Garotinho (PR-RJ), preso anteontem por suspeita de compra de votos, fez alusão à detenção de seu adversário político. Postagem em seu blog, porém, ressalva que os casos são diferentes.

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