Primeira etapa do projeto foi bem-sucedida

Botas, luvas grossas, capacete da construção civil, macacão de jeans: dificilmente alguém diria que Francisco Luiz Vicentini Neto é um engenheiro mecânico, pesquisador científico, integrante do Laboratório de Instrumentação Oceanográfica do Instituto de Oceanografia da USP. Ele foi o responsável pelo projeto e instalação dos fundeios que foram colocados no mar na viagem do Besnard.O trabalho desses pesquisadores é braçal: puxar cabos, correntes e cordas muito grossas; trabalhar com ferramentas pesadas - a rotina normal para Neto faz que ele passe longe do estereótipo do cientista rodeado de livros, recolhido ao silêncio das bibliotecas ou trancado em laboratórios.A viagem iniciada no dia 1º seguiu tranqüila durante as primeiras 96 horas, com tempo ensolarado e mar calmo, de força 2: ventos de 4 a 6 nós ( 2,05 a 3,08 metros por segundo), e ondulações ligeiras. A primeira estação, em formato de U, foi colocada a 50 metros de profundidade e ficou próxima da costa. Por conta desses dois fatores, os pesquisadores foram obrigados a colocar uma grande bóia sinalizadora na superfície. ?Ela foi usada porque é comum em regiões de pesca de arrasto, como em Cabo Frio, as grandes redes de pescadores profissionais ´pescarem´ nossos equipamentos. Além disso, a bóia terá a bordo aparelhos empregados nas medições meteorológicas?, explicou o professor Castro Filho.A colocação desse primeiro fundeio foi o momento de maior tensão na viagem do Besnard. Primeiro, por ser uma estação em U, com duas ?pernas? formadas por bóias e equipamentos, é mais difícil de ser instalada. A bóia de sinalização é muito grande e difícil de ser desembarcada. Uma vez no mar, não poderia ficar à deriva, correndo risco de se chocar com o casco do navio ou de se perder no oceano.Já estava anoitecendo, a corrente marítima era muito forte e jogou o navio de encontro à bóia e ao bote da equipe de apoio. O painel solar que mantém os equipamentos e luzes sinalizadoras funcionando na bóia foi danificado no choque. ?Ela tem uma bateria que a mantém funcionando por mais de um mês. Se for necessário, temos um painel reserva para trocar?, contou o professor Belmiro Mendes de Castro Filho.A colocação do segundo fundeio, na profundidade de 200 metros, foi feita com tranqüilidade. Já na instalação do terceiro fundeio, que ficaria na linha de 100 metros, aconteceu um contratempo. Havia um barco de pesca de camarão na região, e para esse tipo de animal, os pescadores usam redes de arrasto que vão até o fundo oceânico. ?O normal é haver a pesca de arrasto até 60, 80 metros no máximo, por isso foi uma surpresa para a gente vê-los aqui, e não conseguimos contato com o barco. Como esse fundeio não tem bóia de superfície, preferimos instalar o fundeio há 120 metros de profundidade?, explicou o pesquisador. O navio viajou mais uma hora até chegar no novo ponto.Na avaliação do professor Castro Filho, a operação foi um sucesso. ?Fizemos tudo em um tempo menor do que o previsto, devido às boas condições do tempo?, avaliou ele. Em 40 dias, eles retornam às estações, para coletar os dados armazenados nos equipamentos e ver se os correntógrafos estão funcionando de maneira adequada. Os fundeios foram os primeiros equipamentos a serem instalados porque os dados de correntes são básicos para qualquer pesquisa oceanográfica do projeto, seja física, química, biológica ou geológica.

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