Primeira-dama de Campinas centralizava propina, diz testemunha

Segundo investigação do Ministério Público, após saída de Aquino da Sanasa, Rosely assumiu o comando do esquema

Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2011 | 23h00

As investigações do Ministério Público Estadual (MPE) mostram que a primeira-dama Rosely Nassim Jorge dos Santos teria centralizado o recebimento da propina depois que os integrantes do esquema foram chantageados por dois lobistas que atuavam como recolhedores da propina paga por empresários à Sanasa, a empresa de água e esgoto de Campinas.

 

Duas testemunhas ouvidas pelos promotores que combatem crime organizado disseram ter presenciado encontros de Rosely nos quais se discutia a partilha. Um empresário afirma que foi achacado por integrante do esquema que lhe foi indicado por Rosely como o homem que analisaria seu problema.

 

Mulher do prefeito Hélio de Oliveira Santos, o Dr. Hélio (PDT), Rosely é chefe de gabinete do marido. Ela é apontada pelos promotores como a chefe da quadrilha que se instalou na prefeitura de Campinas.

 

O bando teria quatro áreas de atuação: três arrecadavam propina e uma delas cuidava da lavagem do dinheiro da corrupção.

 

Além da delação premiada feita pelo ex-presidente da Sanasa, Luiz Augusto Castrillon de Aquino, os promotores conseguiram o depoimento do segurança Marcelo Wegner Teixeira, que acompanhava um dos lobistas que teriam chantageado Aquino até 2008, quando este foi afastado da presidência da Sanasa.

 

Na época, a propina paga pelos empresários era dividida em três partes, uma delas iria para a primeira-dama. O segurança contou que, após a saída de Aquino da Sanasa, a "sra. Rosely determinou que não haveria mais divisão de repasses porcentuais dos contratos e tudo seria recebido por ela própria".

 

Segundo Aquino, o dinheiro então teria passado a ser entregue "diretamente ao senhor Demétrio Vilagra (PT)", vice-prefeito de Campinas e também integrante do grupo de Rosely. Assim teria ocorrido no caso, por exemplo, da propina paga no contrato da Sanasa com a empresa Global Serviços e Logística.

 

Evidências. Os donos da empresa negaram tudo, mas, segundo o MPE, eles mentiram. Como prova, os promotores têm escutas telefônicas do empresário Alfredo Ferreira Antunes, um dos sócios da empresa. Às 19h09 de 14 de abril, um dos grampos mostra ele dizendo: "Eu nunca dei o dinheiro perto de ninguém".

 

No dia 15, Antunes conversou com Aquino, o homem da delação, sobre o vice-prefeito Vilagra. Ele disse que "entrava na salinha dele (Vilagra), nunca ninguém viu nada.". E concluiu: "O Vilagra não abre, se não ele dança". O contrato da Global com a Sanasa durou de 2005 a 2010.

 

Os documentos da promotoria acusam ainda a primeira-dama de arrecadar propina na liberação de empreendimentos imobiliários e na concessão de alvarás. Ela ainda lavaria o dinheiro por meio de várias empresas.

 

Uma das vítimas do grupo, o empresário Ilário Bocaletto, contou que tentou regularizar a situação de três terrenos atingidos por cobranças indevidas de IPTU. Ele disse que se encontrou com Rosely, que pediu para ele procurar Ricardo Cândia, que cuidaria do caso. Este teria exigido 15% do valor das multas de R$ 1,9 milhão para que as cobranças fossem revistas. "Ele disse que só fazia negócios ‘em verdes’."

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