Renato S. Cerqueira/Futura Press - 8/11/2018
Renato S. Cerqueira/Futura Press - 8/11/2018

Prévias obrigam PSDB a olhar para a sua base

Em disputa direta, Doria e Leite cortejam prefeitos por vaga de candidato à presidência em 2022

Pedro Venceslau, do Estadão, e Carlos Eduardo Cherem, especial para o Estadão

25 de outubro de 2021 | 05h00

BELO HORIZONTE - Reeleito prefeito de Itaguara (MG) em 2020 com 6.386 votos (o que equivale a 91,62% do eleitorado local), Donizete Chumbinho sempre acompanhou como um espectador distante os debates sobre os rumos do seu partido, o PSDB. Nas últimas semanas, porém, o prefeito se viu no centro de uma disputa de “cachorro grande” nas prévias para a escolha do pré-candidato da sigla à Presidência da República.

Após o diretório tucano mineiro fechar questão pelo apoio ao governador gaúcho, Eduardo Leite, aliados do governador paulista, João Doria, passaram a prospectar prefeitos, vice-prefeitos e vereadores do Estado para tentar romper o bloco costurado pelo deputado federal Aécio Neves, desafeto declarado de Doria.

Com 86 prefeitos e 61 vices filiados ao PSDB, Minas é o segundo maior colégio eleitoral da legenda, atrás apenas de São Paulo – que tem 237 prefeitos e 147 vices. Na soma geral, o colegiado exerce papel fundamental para Leite vencer as primárias tucanas, marcadas para 21 de novembro.

Chumbinho, da pequena Itaguara (cerca de 13,5 mil habitantes), simboliza um efeito significativo na dinâmica interna do PSDB por causa das prévias. O partido fundado em 1988 com um discurso municipalista e de respeito às bases tomou a maioria de suas decisões eleitorais importantes até aqui em jantares de cúpula e em ambientes fechados. Agora, a disputa interna tornou obrigatório o olhar para a base.

No começo do mês, Chumbinho foi convidado pelo deputado federal Domingos Sávio, vice-presidente nacional do PSDB e único aliado de Doria em Minas, a participar de dois eventos com o pré-candidato paulista – um em Belo Horizonte e outro em Betim, na região metropolitana. Um dos poucos prefeitos tucanos que prestigiaram Doria, ele fez questão de levar ao governador um “kit rapadura”, iguaria que é a marca de sua cidade. Apesar da gentileza, não aceitou gravar uma mensagem de apoio.

Dias depois, o prefeito recebeu outro convite, dessa vez para participar de um ato político pró-Eduardo Leite, em Belo Horizonte. E, novamente, aceitou. Chegando ao local, Chumbinho recebeu tratamento vip, subiu ao palco e foi o último a discursar depois de entregar seu “kit rapadura” também para o gaúcho. “Ainda não defini meu voto, mas as prévias valorizaram demais os prefeitos”, disse.

“A maior parte dos partidos no Brasil é de oligarquias. As decisões no PSDB no final das contas ficavam restritas a um número restrito de dirigentes. Com as prévias, prefeitos, vice-prefeitos e vereadores ganharam um protagonismo que não tinham e passaram a ter relação com o projeto nacional do partido”, observou José Álvaro Moisés, cientista político e professor da USP.

Peso

A mudança não é por acaso. O colégio eleitoral das prévias foi montado de modo que a votação será indireta e com pesos diferentes entre filiados, mandatários e dirigentes. A esmagadora maioria dos 1.353.838 filiados ao PSDB, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), representa apenas 25% do resultado final. Votos de quem tem mandato valem mais na disputa.

Os 565 prefeitos e 445 vices tucanos espalhados por todo o País somam juntos mais 25% dos votos. A outra metade está dividida entre o grupo dos vereadores (são 4.297) e de deputados estaduais (72) – com os mesmos 25% – e, por fim, o grupo dos governadores (3), vice-governadores (5), senadores (7), deputados federais (32) e o presidente nacional do partido, Bruno Araújo (PE). Ainda segundo as normas, vence quem alcançar maioria absoluta dos votos válidos considerando esta soma: resultado do grupo 1 + resultado do grupo 2 + resultado do grupo 3 + resultado do grupo 4. Se for necessário, pode haver segundo turno de votação em 28 de novembro.

Considerados favoritos, Leite e Doria têm travado uma disputa direta que ganha contornos cada vez mais acirrados. Os diretórios tucanos de Minas, Rio Grande do Sul, Ceará e Bahia apresentaram na semana passada uma representação à Comissão Executiva Nacional do PSDB por suspeita de fraude na inscrição de eleitores paulistas.

Os quatro diretórios aliados de Leite alegaram que pelo menos 51 prefeitos e 41 vice-prefeitos de São Paulo, ligados a Doria, teriam apresentado datas de filiação ao PSDB diferentes da realidade. Para poder votar nas prévias, os novos filiados precisam ter entrado na legenda até 31 de maio.

'Sensível'

Em Dubai para uma missão comercial, Bruno Araújo classificou como “sensíveis” as denúncias feitas por aliados de Leite. “Não tenho como me posicionar, já que estou numa posição de julgador. Mas o assunto é sensível e merece um grau de atenção relevante”, disse o presidente do PSDB ao Estadão. Ele afirmou ainda que o aplicativo contratado pelo partido para a votação remota de parte dos filiados nas prévias é seguro. “Esse aplicativo não vai fazer só bem ao PSDB. Vamos doar formalmente a todos os partidos.” 

Para ter chances de vitória, o governador gaúcho precisa morder fatias na base do principal adversário (Arthur Virgílio, ex-senador e ex-prefeito de Manaus, também concorre). O número de prefeitos (31) e vice tucanos (31) no Rio Grande do Sul, por exemplo, é bem menor na comparação com São Paulo. 

A campanha de Doria aposta que o Estado, principal base nacional tucana desde 1988, dá uma dianteira de 25% entre os filiados. Com os números em mãos, Leite decidiu focar sua estratégia no campo do adversário e tem ido a São Paulo ao menos uma vez por semana. 

Nesse cabo de guerra, os dois lados reclamam que a máquina, seja partidária ou de governo, age para interditar eventuais adesões. “Temos em São Paulo mais de 50 prefeitos que votarão no Eduardo (Leite), mas eles têm um certo receio de externar esse apoio para evitar constrangimentos”, afirmou o prefeito de Santo André, Paulo Serra, que coordena a campanha do governador gaúcho no Estado. 

Até o momento, apenas um prefeito, além de Serra, oficializou o apoio a Leite: Izaías Santana (Jacareí). Em um esforço para blindar sua base, Doria recolheu de forma eletrônica a assinatura de 234 prefeitos, segundo sua equipe. 

Caça-prefeitos

Para o cientista político Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC, Doria fez um intenso trabalho de base em São Paulo e preparou o terreno para ser o candidato natural, mas muitos enxergam em Leite uma transição geracional mais pacífica e suave. A questão que se coloca, disse, é se o escolhido será um nome competitivo fora dos muros do PSDB ou alguém para pacificar os conflitos internos.

Vencedor das duas únicas prévias do PSDB até hoje – em 2016 para prefeito e 2018 para governador –, Doria escalou Frederico Guidoni, ex-prefeito de Campos de Jordão, para rodar o Brasil em buscas do apoio de mandatários. 

Presidente da Associação Paulista dos Municípios (APM) e tesoureiro do PSDB paulista, Guidoni disse que já esteve em 13 Estados desde o início das prévias. “Por ser ex-prefeito, a linguagem é muito próxima. O cobertor do prefeito sempre é curto”, afirmou. 

O mecanismo das prévias não é uma novidade no debate interno do PSDB. Em 2008, por exemplo, foi uma provocação do partido que levou o TSE a regulamentar o modelo que ainda está em vigor. Em 2010, o então governador de Minas, Aécio Neves, apelou para as prévias para pressionar o partido quando o paulista José Serra despontava como favorito para a disputa presidencial. A estratégia foi respaldada pelo presidente do partido à época, Sérgio Guerra, mas o martelo foi batido em um jantar em São Paulo, e Serra foi ungido candidato.

Como percebeu o prefeito de Itaguara (MG), na prática do ambiente tucano as prévias nacionais já serviram para combalir os arranjos de cúpula.

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