Pressões sobre Graça Foster aumentam após divulgação de alertas de ex-gerente

Presidente foi avisada sobre irregularidades em Abreu e Lima desde 2011 e sobre suspeita em operações no exterior já sob atual gestão

Ricardo Della Coletta e Daiene Cardoso, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2014 | 02h01

A pressão pela troca da atual direção da Petrobrás aumentou ontem, após a revelação de que a presidente da estatal, Graça Foster, foi informada sobre irregularidades antes de virem à tona as investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Além de não terem sido tomadas providências em parte das denúncias da geóloga Venina Velosa da Fonseca, ex-gerente executiva da Diretoria de Abastecimento, a funcionária relatou ter sofrido represálias da antiga e da atual direção. Ela deve prestar depoimento ao Ministério Público Federal na próxima semana.

Ontem, após a divulgação desses fatos pelo jornal Valor Econômico, a oposição voltou a cobrar a saída de Graça e vai pedir o indiciamento dela no relatório paralelo da CPI mista da Petrobrás. "Ela vai se transformando numa presidente fraca, que não tomou medidas para conter os desmandos na Petrobrás", disse o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA). Na terça-feira, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, já havia se posicionado pela troca de comando na estatal.

Dentro do próprio PT, apesar de declarações públicas de apoio a Graça, cresce o movimento pela troca do comando da estatal, principalmente entre os integrantes do partido ligados ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para esta ala dos petistas, a crise em torno da empresa exige a nomeação de alguém do mercado para a presidência da estatal, de fora dos quadros da Petrobrás, e que tenha autonomia para cortar investimentos e rever o planejamento da petroleira.

Acusações. Venina atuava na Diretoria de Abastecimento - subordinada a Paulo Roberto Costa, delator do esquema de desvios na estatal - quando fez a primeira denúncia sobre despesas irregulares, em 2008. Nos anos seguintes, ela apontaria elevação de custos da refinaria de Abreu e Lima, um dos focos da Lava Jato, e na comercialização de óleo combustível no exterior. Nesse último caso, já sob a gestão de Graça e com José Carlos Cosenza no lugar de Costa, não foram tomadas providências a respeito, segundo a reportagem.

Na primeira denúncia, a ex-gerente verificou que contratos de pequenos serviços na comunicação da Diretoria de Abastecimento, cujo orçamento para o ano de 2008 era de R$ 39 milhões, somavam R$ 133 milhões de janeiro a meados de novembro. Ao procurar Costa, o então diretor apontou o dedo para um retrato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e perguntou se ela queria "derrubar todo mundo".

Costa também afirmou que a responsabilidade sobre os gastos era de outro gerente, Geovanne de Morais. Venina levou o caso ao presidente da Petrobrás na época, José Sergio Gabrielli. Uma comissão interna detectou R$ 58 milhões pagos por serviços não realizados e determinou a demissão de Morais.

Abreu e Lima. No ano seguinte, em abril, Venina enviou e-mail para Graça, na época diretora de Gás e Energia, pedindo ajuda para escrever sobre os problemas na estatal. Ela verificou elevação de gastos em Abreu e Lima de US$ 4 bilhões para US$ 18 bilhões, em contratos firmados com empreiteiras hoje investigadas pela Lava Jato.

Em ofício de 4 de maio de 2009, Venina criticou a forma de contratação sem licitação em pelo menos quatro ocasiões. Para ela, o "início das licitações em Abreu e Lima" seriam as "medidas corretas" a serem adotadas. Desde 1998, decreto do então presidente Fernando Henrique Cardoso libera a Petrobrás de seguir a Lei de Licitações.

Segundo documento de 2009 da estatal, a ex-gerente fez 107 Solicitações de Modificação de Projetos, com economia estimada de R$ 948 milhões. Nenhuma foi aceita. Parte das sugestões era direcionada à Diretoria de Serviços, comandada na época por Renato Duque - investigado e preso pela Lava Jato, ele foi solto por liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki.

Em outubro de 2009, Venina deixou o cargo subordinado a Costa. Em fevereiro de 2010, foi enviada para uma unidade da Petrobrás em Cingapura - no mês passado, a ex-gerente diria a Graça que, ao ser expatriada, "o diretor, hoje preso, levantou um brinde, apesar de dizer ser pena não poder me exilar por toda a vida".

A Petrobrás abriu em 2011 investigação interna sobre Abreu e Lima, mas não se sabe se foi a partir da denúncia da geóloga.

'Vergonha'. No fim de 2011, Venina disse a Graça, por e-mail, que "o imenso orgulho que tinha pela empresa" deu lugar à "vergonha". A geóloga sugeriu apresentar a documentação à então diretora de Gás e Energia. "Parte dela eu sei que você já conhece. Gostaria de te ouvir antes de dar o próximo passo." A reportagem não diz se Graça respondeu à geóloga.

Venina voltou ao Brasil em 2012 por cinco meses, antes de retornar a Cingapura como chefe do escritório. Em março e abril de 2014, já com Graça na presidência da Petrobrás e Cosenza no lugar de Costa, a geóloga enviou e-mails ao diretor sobre perdas de até 15% na comercialização de combustível para navios.

Sem resposta do diretor, em maio Venina veio ao Brasil e fez uma apresentação na sede da estatal sobre o caso e, no mês seguinte, propôs a criação de uma área de controle de perdas nos escritórios fora do Brasil. Novamente ficou sem resposta.

A última mensagem de Venina foi enviada em 17 de novembro, dois dias antes de ser afastada da chefia de Cingapura. No dia 20, ela disse a Graça: "Fui ameaçada e assediada. Até arma na minha cabeça e ameaça às minhas filhas eu tive."

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