CAPÍTULO 06

Pressão das redes sociais derruba Renan e ganha peso no Congresso

Se os parlamentares decidirem se pautar apenas pelo o que seus seguidores acreditam, o governo pode estar começando a correr sério risco

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2019 | 18h00

Caro leitor,

No capítulo anterior, contamos que o Congresso caminhava para manter velhos líderes políticos no comando da Câmara e do Senado. E, por terem suas práticas já conhecidas, isso até sinalizava com um menor risco para o governo conseguir aprovar projetos fundamentais como a reforma da Previdência. Na Câmara, deu a lógica e Rodrigo Maia (DEM-RJ) se elegeu com facilidade já no primeiro turno. Veja aqui como foi sua vitória.

Mas, no Senado, houve uma reviravolta causada pela mesma pressão popular que, impulsionada pelas redes sociais, derrubou nas urnas grandes cardeais da chamada velha política. Renan Calheiros (MDB-AL) foi batido pelo desconhecido Davi Alcolumbre (DEM-AP), um integrante do baixo clero. Alcolumbre até tinha o importante apoio do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, mas o que pesou a seu favor mesmo foi a gigantesca rejeição a Renan. 

Preocupados com a reação das redes e dizendo que não queriam ser condenados pelo "Tribunal dos Aeroportos" (apelido dado pelos próprios parlamentares à pressão feita pelos eleitores contra eles quando estão embarcando em voos comerciais), muitos senadores preferiram jogar para a galera, abrindo o voto e provando que não apoiavam Renan.  Alcolumbre soube surfar como ninguém nessa onda. Aqui, você pode ler o que o colunista José Neumânne escreveu sobre essa pressão da população.

Renan tinha sido um raro sobrevivente à degola geral dos velhos políticos, se reelegendo em segundo lugar. Talvez por isso, acreditou ser possível também conquistar o quinto mandato como presidente do Senado. Até porque, à exceção de Onyx, ninguém no Planalto lhe fazia oposição ostensiva. Como sabia que a pressão da opinião pública seria grande contra quem votasse nele, Renan fez de tudo para que a votação fosse secreta. Assim, poderia preservar seus aliados. 

O que se viu, a partir daí, foi uma sessão de horrores no Senado, com os parlamentares usando e abusando de malandragens, manobras regimentais, conchavos, recursos jurídicos e até ameaças de agressão durante o processo de votação. Os vexames foram tão grandes que chegou a se produzir uma votação em que apareceram 82 votos sendo que só existem 81 senadores. No BR18, eu escrevi sobre os absurdos que ocorreram nessa sessão e na sua coluna Vera Magalhães também fez uma importante análise sobre o assunto.

Com o desfecho da vitória de Davi Alcolumbre, ficam algumas certezas e várias interrogações. Uma coisa clara é que o magoadíssimo Renan se torna um inimigo declarado do Planalto depois dessa derrota e poderá atrapalhar a votação das reformas com o que ainda possui de força política. Você pode saber mais sobre isso aqui, na coluna de Eliane Cantanhêde e nesta reportagem onde Renan afirma que "você até pode tirar de cena o velho Renan, mas não matá-lo".

No campo das dúvidas, não se sabe ao certo o que a presença de Davi Alcolumbre poderá representar. Ele é um ilustre desconhecido mas tem histórico de ações que lembram a velha política. Você pode ver mais nesta reportagem

E a maior de todas as certezas é que a pressão dos eleitores, via redes sociais ou nas cortes dos aeroportos, é um fator que veio para ficar. Senadores abriram e fotografaram seus votos para ficarem bem com seus apoiadores. E isso abre uma perspectiva perigosíssima para as reformas. Nem sempre a decisão mais importante a ser tomada pelo governo ou pelo Congresso é a mais popular. Remédios amargos são necessários, mas deputados e senadores darão aval a eles se suas redes não permitirem? 

Neste editorial esclarecedor, fica nítida a importância entre se fazer o que o País precisa em vez de apenas angariar aplausos nas redes. E, neste outro, é lembrada a imensa responsabilidade que os parlamentares eleitos terão a partir de agora.

Com o governo de Jair Bolsonaro já se desgastando mais rápido do que se imaginava, existe uma pressa maior para deflagrar propostas importantes como a reforma previdenciária e o pacote de combate à corrupção e à criminalidade elaborado pelo ministro Sérgio Moro, como você pode ler aqui. Mas se os parlamentares decidirem se pautar apenas pelo o que seus seguidores acreditam, o governo pode estar começando a correr sério risco. 

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Marcelo de Moraes

Marcelo de Moraes

Editor do BR18

Cobre política em Brasília há 26 anos e já acompanhou 14 eleições, sendo sete presidenciais. Trabalha no Estadão desde 2004, onde foi Diretor e Chefe da Redação da Sucursal de Brasília, Editor Executivo e colunista, entre outras funções. Sabe que jamais morrerá de tédio cobrindo política na capital do País.

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