Presos mantêm 24 reféns na casa de Custódia de Benfica

Presos da Casa de Custódia de Benfica, na zona norte do Rio, rebelados desde as 6 horas, ainda mantêm 24 pessoas como reféns, entre agentes penitenciários e prestadores de serviço. O incidente começou com a fuga de 14 detentos, que escaparam pelo portão principal da unidade. A polícia foi acionada e houve troca de tiros. Apavorados, moradores vizinhos contaram ter ouvido fortes explosões por volta das 6 horas, que seriam de granadas. Eles relataram que um grupo de homens armados teria ajudado os presos a arrombar o portão principal. Mas o comandante de Policiamento da Capital, coronel Fernando Belo, única autoridade policial que se pronunciou sobre a rebelião, negou que tenha havido qualquer tentativa de resgate. "Sob controle"Belo desmentiu até mesmo que tenha havido motim. "Os próprios internos dizem que não estão rebelados, apenas tentaram uma fuga e não conseguiram. Agora, o que querem é garantia de vida. Estamos aqui para oferecê-la", disse. Apesar de os reféns continuarem sob poder dos detentos, ele afirmou que a situação estava "sob controle".Quatro PMs que faziam a segurança das guaritas ficaram feridos. Um deles chegou a se jogar da cabine, que fica em cima do muro de cerca de quatro metros de altura. Os 14 presos que conseguiram fugir dominaram um policial militar que fazia a segurança do portão principal. O grupo roubou pelo menos quatro carros nas imediações do presídio. Os detentos que ficaram para trás queimaram colchões e renderam 26 pessoas. Duas foram libertadas por volta das 16 horas, quando também foram liberados cinco presos que ficaram feridos. Eles foram conduzidos ao Hospital Penitenciário.Dentro do presídioDentro do presídio, os detentos - a maior parte ligada à facção criminosa Comando Vermelho - destruíram as paredes e gritaram palavras de ordem. Garantindo que estavam armados (segundo policiais, teriam até fuzis), eles disseram que também haviam dominado presos de outras facções. Os presos pediram a garantia da integridade física e a presença de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Secretaria de Direitos Humanos.O subsecretário de Direitos Humanos, Paulo Baía, acompanhou as negociações conduzidas por oficiais da PM e um psicólogo da Administração Penitenciária. Paralelamente ao cerco, a Polícia Civil desencadeou operações nas redondezas na tentativa de recapturar fugitivos. Apenas três haviam sido localizados até o início da noite.ProtestoMoradores protestaram contra a localização da Casa de Custódia, que fica bem próximo de casas e em frente a duas escolas públicas. "Foram tantos tiros e explosões, que minha casa tremia. Os bandidos passam o dia inteiro gritando e fazendo ameaças entre eles. Imagina se esta rebelião tivesse acontecido em horário de aula", disse uma moradora, que teve medo de se identificar. Parentes de detentos aguardaram informações do lado de fora durante todo o dia. Dizendo-se desesperada, Cláudia Regina dos Santos, de 37 anos, mãe de um rapaz preso por assalto, tirou parte da roupa na tentativa de chamar atenção e conseguir notícias. Ela chegou à casa de custódia às 22h30 de sexta-feira, porque soube que os internos fariam uma greve de fome pra reivindicar melhor tratamento.Uma mulher que não quis se identificar, cujo irmão também está detido por assalto, descreveu uma rotina de agressões na prisão. "Eles apanham todos os dias. Meu irmão está doente e eles (os agentes) jogaram todos os remédios dele fora."O agente Antônio Carlos dos Anjos, que trabalha na unidade desde a inauguração, criticou a falta de experiência dos funcionários - que, em sua maioria, são policiais militares reformados que integram uma cooperativa. "Além de a estrutura ser frágil, os cooperativados não são capazes de manter a segurança, porque não têm experiência." Ele disse que as paredes das celas são de alvenaria, e não de concreto. O presídio não está superlotado - tem capacidade para 1.300 pessoas, mas abriga, no momento, 900.PresídioO presídio, inaugurado há um mês, fica numa área residencial e tem os fundos voltados para a favela Parque Arará. No quarto andar da unidade, funciona a carceragem do Ponto Zero, destinada a presos de nível universitário. Lá estão o ex-deputado Sérgio Naya e Rodrigo Silveirinha, condenado por desvio de verbas no escândalo do propinoduto. No entanto, a área fica isolada do resto da penitenciária por uma porta de aço.

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