Márcia Foletto/Agência O Globo
Márcia Foletto/Agência O Globo

Presos da Lava Jato recorreram a médium e pagaram ‘benfeitorias’

Livro do jornalista Wálter Nunes relata cotidiano e curiosidades de figuras importantes que foram presas pela operação

Vinícius Passarelli, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 17h06

No segundo semestre de 2015, a advogada Isabel Kugler, presidente do Conselho da Comunidade do Complexo Médico Penal (CMP) de Curitiba, estava preocupada com a saúde espiritual do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque, preso pela Operação Lava Jato desde novembro do ano anterior.

Para ajudar o empresário, Isabel recorreu à ajuda de um antigo colaborador de outros presídios do Paraná: o líder espiritual Frei Bonifácio. Ele era, na verdade, o sírio Nassib Adbo Abage Filho, dono de um tradicional antiquário em Curitiba, sede da Lava Jato, que havia feito fama na cidade com seus atendimentos mediúnicos. Segundo o médium, o contato com o espírito religioso começou aos 13 anos de idade.

“O ex-diretor da Petrobrás, que chegou à cadeia dizendo que não ficaria muito tempo ali, já tinha percebido que não sairia tão cedo e foi tomado por profundo abatimento. A melancolia do burocrata preocupou a advogada, que temia que ele desse cabo da própria vida. A dra. Isabel avaliou que estava fora do mundo terreno a ajuda a Duque”, conta o jornalista Wálter Nunes no livro A Elite Na Cadeira, lançado essa semana pela editora Objetiva e que narra essa e outras tantas histórias do dia a dia de empreiteiros, empresários, doleiros e políticos enviados ao cárcere pela Lava Jato.

Nassib continuou atendendo os “lavajatos” por um tempo, mas interrompeu as visitas para se dedicar à torcida de seu sobrinho Kaysar Dadour no reality show global Big Brother Brasil, do qual o sírio saiu como vice-campeão.

O recorte de tempo narrado no livro se inicia em novembro de 2014, quando o então juiz Sérgio Moro, responsável pela 13ª Vara Federal de Curitiba, mandou prender executivos e empreiteiros como Renato Duque, ex-diretor da Petrobrás; Léo Pinheiro, dono da construtora OAS; Ricardo Pessoa, da UTC; Dalton Avancini, da Camargo Corrêa; o lobista Fernando Baiano; entre outros. Foi a 7ª fase da Lava Jato, batizada de Juízo Final.

“A Lava Jato vira Lava Jato ali, quando coloca um monte de rico dentro da cadeia”, conta Nunes. Meses antes, já haviam sido presos o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa. Eram presos “ilustres”: segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), apenas 1% dos 720 mil presos no Brasil possuem curso superior.

Um ‘escritório’ em Curitiba para Marcelo Odebrecht

Em junho de 2015, os agentes da Polícia Federal bateram na porta da casa do nono homem mais rico do País, com uma fortuna pessoal estimada em R$ 13 bilhões, segundo a revista Forbes. Marcelo Odebrecht recebeu os agentes após sua série diária de braçadas na piscina semiolímpica de sua casa, quando se preparava para tomar café da manhã com a mulher e suas três filhas. O empresário teve sua mansão no Jardim Pignatari, na zona sul de São Paulo, revirada pela PF e saiu de lá detido. O herdeiro da empreiteira baiana só voltaria para casa dois anos e meio depois.

Logo que seus executivos foram atingidos pela Lava Jato, a Odebrecht teve de se adaptar à inédita situação e montar um esquema especial para atender a demanda de seus presos. Funcionários foram deslocados para Curitiba e um escritório na cidade foi alugado para servir como centro de apoio e logística. Dois carros foram providenciados para servir de transporte de familiares e amigos que visitavam os empresários e cuja estadia e alimentação também eram bancados pela empreiteira.

Advogados eram designados a pegar cartas escritas por Marcelo de dentro da prisão com instruções e repassar para o comando da empresa. Ele continuava despachando do cárcere.

A estrutura foi readaptada quando Marcelo e outros executivos foram transferidos da carceragem da PF para o Complexo Médico Penal. Como o presídio fica em Pinhais, cidade vizinha a Curitiba, e em uma área pouco habitada, a Odebrecht teve que adaptar uma van que ficava estacionada no gramado em frente ao complexo, servindo como base de apoio com lanches, refrigerantes e água para os parentes que saíam após as visitas. Os familiares dos detentos evitavam comer durante a visita para deixar o alimento que levavam para o preso. No livro, Nunes conta que com o tempo a estrutura passou a ser aproveitada também por familiares de outros presos.

“O irmão de Fernando Baiano e o filho de Renato Duque criaram o hábito de ir para a van lanchar com a mulher de Marcelo e as filhas de Alexandrino Alencar (diretor de relações institucionais da Odebrecht)”, diz um trecho de A Elite na Cadeia.

Relação com outros detentos e ‘benfeitorias’

Nunes narra a impressão inicial dos presos da Lava Jato — que imaginavam que logo sairiam dali —, a transferência da carceragem da Polícia Federal para o CMP e a relação entre delatores —  e suas regalias — e delatados dentro da prisão. O convívio diário entre os homens mais ricos do País com criminosos acusados de assaltos, contrabando, assassinato, estupro, entre outros delitos, e a dinâmica desenvolvida pelos detentos também são relatados.

“O comportamento que eles tinham fora da cadeia eles continuaram tendo dentro dela. Por exemplo, o Fernando Baiano continua fazendo lobby, os empreiteiros continuam patrocinando coisas, os políticos continuam se organizando em bloco, por partido. A hierarquia que existia dentro das empresas também se mantém dentro da prisão”, conta Nunes.

O livro narra algumas “benfeitorias” promovidas pelos empreiteiros no presídio em que estavam: compra de produtos de higiene, pintura nas paredes e aparelhos de televisão.

Para Nunes, o livro mostra que a desigualdade entre ricos e pobres que há no Brasil é reproduzida dentro da cadeia. A diferença entre as alas dos “lavajatos” e dos presos comuns chega a comover alguns dos empreiteiros da Odebrecht e da OAS, que bancam doações de cobertores e geladeira para a ala dos presos comuns. “Na ala comum há denúncias de tortura, de maus-tratos, falta de higiene, estrutura precária, superlotação. A situação dos presos da Lava Jato não era confortável, mas era muito diferente da realidade dos outros internos.” 

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