Preso na sexta-feira, no sábado já estava morto

Tortura rompeu os pontos de cirurgia recente e hemorragia levou Alexandre à morte

O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2008 | 00h00

A sorte de Alexandre Vannucchi Leme foi selada em 16 de março de 1973, uma sexta-feira, quando os encapuzados da Operação Bandeirante (Oban) o levaram sem ordem judicial. Evidências e relatos de sobreviventes dos porões da ditadura confirmam que ele morreu no sábado, 17, mas o caso só foi tornado público uma semana depois.Submetido a uma cirurgia de apêndice, pouco tempo antes de ser aprisionado, ele foi espancado na cela-forte do DOI-Codi, na Rua Thomaz Carvalhal, no Paraíso. A tortura rompeu os pontos da cirurgia e a forte hemorragia o levou à morte.Adriano Diogo, amigo e colega de Alexandre na Geologia, chegou naquele sábado, arrastado pelos homens da repressão.O que ele viu: "Era uma hora da tarde. Passei por um corredor polonês, eles me barbarizaram logo na entrada. Eles estavam acabando de lavar a cela-forte, eu vi muito sangue misturado com a água que eles puxavam. A cela tinha um portão de ferro, devia ter um metro e 90 por dois de fundos. Era completamente escura. Um encapuzado disse: ?O terrorista acabou de morrer, o Minhoca morreu.? Aí subi pro interrogatório. Um major confirmou aos berros: ?Acabou de morrer o Alexandre Vannucchi, morreu o terrorista filho da p., mandamos ele para a Vanguarda Popular Celestial, agora chegou a sua vez.?"VERSÕESDiogo está com 59 anos, é deputado estadual pelo PT. Líder estudantil, tinha 23 anos quando foi preso ilegalmente. Seu depoimento e o de tantos outros que passaram pelo DOI-Codi desmascaram a farsa que a repressão produziu para tentar explicar a morte de Alexandre.Eram comuns as versões fantasiosas dos quartéis. Para cada cadáver, uma história. Para Vladimir Herzog, o jornalista, suicídio por enforcamento. Para Manoel Fiel Filho, o operário, suicídio na cela. Para Alexandre, o atropelamento.A nota oficial dizia que o estudante havia sido esmagado por um caminhão quando tentava escapar da polícia.Brilhante Ustra, coronel reformado e nos anos 70 comandante do DOI, não quer se manifestar. Mas sempre que indagado sobre o episódio ressalta que tudo está relatado no inquérito policial militar (IPM), inclusive depoimentos de "testemunhas sem vinculação política que confirmam o atropelamento"."No outro dia, quando recuperei a consciência, vi que em frente à cela-forte tinha uma cela feminina", conta Diogo. "As meninas viram que o Minhoca foi arrastado morto. Eles não tiveram nem a preocupação de construir uma história. Depois é que falaram de atropelamento, que o Minhoca tinha se atirado debaixo do caminhão.""Era um aluno excelente, de grande valor, veio de uma família muito religiosa. Levava uma vida austera", conta Diogo sobre Alexandre. "A operação do apêndice ainda estava cicatrizando, mas tomou choque e foi pro pau-de-arara. Arrebentou tudo por dentro. Foi um martírio. Quando cheguei no DOI estava o maior alvoroço."A missa na Catedral da Sé, celebrada pelo cardeal d. Paulo Evaristo Arns e 25 sacerdotes para a multidão de estudantes, enfureceu os militares. "Eles ficaram muito nervosos", conta Diogo. "Entraram em delírio e deram o repique. A gente apanhou de graça no pátio do DOI. Aquele dia foi o dia do horror. Uma pancadaria generalizada. O major estava tão louco que arrancou a minha roupa e me deixou só de cuecas no pátio. Batia na gente e xingava o cardeal. Ele urrava. Davam tiros para o ar. Meu Deus, aquele dia... Os caras enlouqueceram."

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