Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Presidente reage "com o fígado", mas desiste de citar PT e Janot diretamente em nota contra Joesley

Ao rebater acusações do empresário Joesley Batista, Planalto divulga nota dura e longa em vez dos poucos parágrafos que normalmente usa para esse tipo de resposta

Tânia Monteiro/BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2017 | 14h19

Em um tom inusual, o presidente Michel Temer reagiu "com o fígado" ao rebater a acusação de Joesley Batista, um dos donos do grupo J&F, de que o peemedebista é o líder da "maior organização criminosa do País". A nota dura e longa tinha 60 linhas, contra os poucos parágrafos que normalmente o Palácio do Planalto usa para esse tipo de resposta. 

Para ajudar a balizar algumas das linhas do texto, o presidente se reuniu com o ministro da Justiça, Torquato Jardim, entre outros interlocutores. Conversou também com seu advogado, Antonio Claudio Mariz. Segundo apurou o Estado, a ação de Temer contra Joesley será assinada pelo advogado do PMDB.

Indignação era o menor sentimento que o presidente Michel Temer demonstrava a auxiliares ao se deparar, na noite de sexta-feira, com a entrevista concedida pelo empresário. Temer, que saiu pouco antes das 18 horas do Planalto, na sexta-feira, bem mais cedo do que o costume, pensando que poderia ter uma noite um pouco menos conturbada do que todas as últimas, acabou sendo "atropelado", nas palavras de um interlocutor, pela divulgação das acusações.

Para o presidente e seus auxiliares é "inadmissível" que um "criminoso" que certamente pegaria "centenas de anos" de prisão pelas "pilhagens" cometidas durante o governo petista, que proporcionou ao grupo JBS virar a potência econômica que virou, sem ser "poupado" e "protegido" pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot.  Temer, não entanto, preferiu não citar explicitamente, mas apenas indiretamente o seu principal algoz. A percepção no Planalto é a de que o Ministério Público Federal vai usar as novas declarações de Joesley para embasar a denúncia que deve ser apresentada contra Temer nos próximos dias. 

O presidente Temer e seus interlocutores não se cansam de repetir que a prova de que Joesley mente quando fala do presidente "é a própria fita", onde se pode ouvir que o empresário faz inúmeros pedidos a Temer, que não foram atendidos, e o presidente apenas ouve.

Outro ponto que deixou o presidente e seus assessores muito irritados é que Joesley "está posando de bonzinho", mesmo depois de continuar cometendo crimes após a gravação com o presidente, como os ganhos, que podem superar R$ 300 bilhões, que o grupo teve  ao vender dólares e provocar prejuízos na venda de ações da empresa. 

Temer também evitou citar diretamente o PT, preferindo dizer que o partido como governos anteriores. O presidente considera "inaceitável" que o Ministério Público não tenha buscado a origem dos privilégios de Joesley e seu grupo receberam, do governo, poupando o governo petista. Temer e seus interlocutores lembram que foi o PT quem "criou e alimentou o monstro" e agora, permanecem "protegidos impunemente" por Janot e todo o Ministério Público.

Mesmo com o novo bombardeio, o presidente Michel Temer decidiu manter a viagem para Rússia e Noruega, marcada para a próxima segunda-feira. Houve quem o tivesse aconselhado a desmarcar a viagem, porque poderia viajar fragilizado, mas Temer não quis. Entende que o tiroteio vai continuar e que esta é apenas mais uma batalha que ele terá de vencer. Ao viajar, o presidente quer demonstrar que "está trabalhando pelo País", para trazer investimentos e ajudar o País a crescer. O governo está convencido também que o adiamento da apresentação da denúncia contra ele é para provocar mais um desgaste a Temer, já que consideram que se isso só acontecer dia 26, o que pode culminar com a suspensão do recesso parlamentar de julho.

 

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