Presidente perde apoio até da bancada do PT

Após cinco meses de crise, líder petista na Casa diz abertamente que melhor solução é afastamento

Christiane Samarco e Cida Fontes, Brasília, O Estadao de S.Paulo

10 Outubro 2007 | 00h00

Após cinco meses de crise, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) viveu ontem um dia diferente. Continuou resistindo, dizendo que não deixa a presidência do Congresso, mas chegou ao fim do dia claramente mais isolado e sem poder contar com o apoio da bancada do PT. A senadora e líder dos petistas, Ideli Salvatti (SC), foi direto ao ponto: "Não adianta querer tapar o sol com a peneira: há um sentimento crescente de que o melhor é o afastamento." Ideli deixou claro que não falava em nome da bancada, mas mostrou que não é voz isolada no PT. Antes de se reunir com senadores do DEM, PSDB, PSB, PDT e PMDB, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) teve o cuidado de consultar, um a um, os 11 senadores petistas sobre a conveniência de Renan se afastar da presidência. "Todos foram unânimes na defesa de que o melhor é ele sair", revelou Mercadante. Renan assistiu tenso e abatido à mais dura sucessão de ataques, desde o início da crise, em que senadores governistas e de oposição se sucederam na tribuna, ontem, pedindo sua renúncia. "Fechou o cerco", avaliou o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). "A pá de cal quem pôs foi a Ideli." O presidente do Senado também viu seu cargo entrar na negociação para votação da CPMF. O Estado apurou que a frente suprapartidária que junta deputados e senadores que defendem seu afastamento proporá ao governo a aprovação da CPMF com redução gradual do imposto, mas, se tiver de ficar com a alíquota atual (0,38%), o Planalto tem de ajudar a mobilizar a bancada governista para tirar logo Renan do cargo. Ontem, o clima no plenário foi tão hostil ao presidente do Senado que ele não conseguiu manter o script que traçara em sua defesa. Ele revelou a amigos que sua disposição era partilhar o "cachimbo da paz". Chegou ao plenário pouco antes das 16 horas, decidido a ter paciência e manter o estilo conciliador. "Hoje o clima pegou fogo no plenário. Pela primeira vez vi Renan perder o controle", comentou o senador Garibaldi Alves (PMDB-RN). Decidido a não bater boca e a apresentar defesa sem conceder apartes, Renan acabou franqueando a palavra a alguns senadores e desentendeu-se com Mercadante. Quando o petista ameaçou detalhar o diálogo que tivera com ele na véspera de seu julgamento no plenário, no dia 12 de setembro, Renan cassou-lhe a palavra. Pela primeira vez o senador petista o enfrentou no debate e tornou público o acordo tácito entre Renan e os aliados que o absolveram no processo de cassação. Mercadante lembrou apelo que fizera em favor de que Renan tirasse licença da presidência e contou que o peemedebista argumentara que não poderia se licenciar antes da votação de seu processo, porque ficaria fragilizado. Segundo o petista, ele teria se comprometido a tirar licença depois da absolvição, como também aconselhava a cúpula do PMDB. O segundo destempero ocorreu quando o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) subiu à tribuna para apresentar gravação comprovando que o assessor da presidência Francisco Escórcio participara de reunião em que discutira plano para espionar não só Demóstenes, como Marconi Perillo (PSDB-GO). Por mais de uma vez, Renan bateu boca com Demóstenes, contestando o orador e sendo contestado. Ele acusou Demóstenes de querer transformar o Senado em "delegacia de polícia" e cassou-lhe a palavra.

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