ANDRÉ DUSEK/ESTADAO
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‘Presidente nunca convidou a bancada da bala para um café’, diz Capitão Augusto

Deputado vê categoria desprestigiada e diz que, sob Bolsonaro, área da segurança pública nunca acumulou tantas perdas

Breno Pires, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 04h00

BRASÍLIA – Líder da bancada da bala no Congresso, o deputado Capitão Augusto (PL-SP) é crítico do presidente Jair Bolsonaro pelo tratamento dado às forças de Segurança Pública. “A gente esperava um governo que fosse reparar o que perdemos”, disse o parlamentar ao Estadão. “A desvalorização dos profissionais da área de segurança acabou piorando.” 

  • Bolsonaro tem cumprido o que prometeu na área de segurança?

Criou-se uma expectativa muito grande, pois finalmente conseguimos eleger um presidente oriundo da bancada da segurança. Tínhamos certeza de que seríamos tratados de uma forma como a gente achou que merecia. No entanto, essa expectativa acabou se tornando uma frustração, porque nós perdemos mais em dois anos do que nos dez últimos anos. Perdemos na reforma da Previdência, na PEC emergencial, na fusão dos ministérios da Segurança Pública e da Justiça. Perdemos até na vacinação, pois colocaram até os presos na frente da gente. 

  • A que atribui essas “perdas”?

Caberia a Bolsonaro explicar. A PEC Emergencial não precisaria ter colocado servidores da área de segurança. É a categoria que mais está sendo contaminada por covid. Só no Estado de São Paulo são 40% dos policiais. Então, não havia necessidade de imputar mais isso aos profissionais da Segurança. A gente já não tem uma série de direitos, que ele sabe muito bem, e aí ainda inclui os servidores da área de Segurança na PEC Emergencial.

  • Como vê a atuação da pasta da Justiça e Segurança Pública?

O Ministério da Justiça pode até continuar forte, mas a segurança está sumida. O ministério não deixa espaço para a área de segurança. Segurança é só no nome. Vamos ver agora se, com o Anderson Torres (novo ministro da Justiça), que é da área da polícia, melhora.

  • O que achou de mais uma mudança de ministro nessa área?

Não fomos nem consultados.

  • O ministério propôs a ampliação de R$ 945 milhões em seu orçamento para 2021, mas foram aprovados R$ 300 milhões...

A gente não é consultado para absolutamente nada. Em dois anos, a bancada da bala nunca foi convidada para tomar café com o presidente. (Bolsonaro) Já se reuniu com a bancada feminina, evangélica, do agronegócio... Nem sequer somos consultados para qualquer tipo de indicação de cargos.

  • Por que esse desprestígio?

Gostaria muito de saber o porquê. Fui o primeiro deputado a declarar apoio a ele, aliado de primeira hora. Se tivesse um presidente da bancada da segurança que fosse desafeto dele, poderia ser que ele estivesse querendo convidar. Mas não há justificativa.

  • O alinhamento com Bolsonaro será mantido em 2022?

Então… Ainda é meio cedo para fazer essa avaliação. As categorias dos policiais estão muito descontentes. Vamos ver se ele vai fazer alguma coisa para reverter esse cenário.

  • Como o sr. tem sido informado sobre esse descontentamento?

Hoje você vê os parlamentares e as próprias polícias externando publicamente. Não sei como será daqui para a frente. 

  • Quando foi a última conversa que o sr. teve com o presidente?

Já nem lembro mais. Tivemos em alguns eventos no Planalto. Mas conversar, mesmo, a última vez foi para falar sobre (a recriação do) Ministério da Segurança, que já faz oito meses.

  • O sr. abriu mão da candidatura à presidência da Câmara para não atrapalhar Arthur Lira...

Exatamente, porque havia preocupação deles que eu tiraria mais votos do Arthur Lira, pois o PL estava junto do Arthur, tinha 43 deputados. Uma ala bolsonarista tinha declarado apoio a mim. A bancada se sente desprestigiada.

  • O governo federal deixou a desejar na vacinação das polícias?

Muito. Tinha feito ofício tanto para o (governador João) Doria quanto para o presidente. Demos a oportunidade de Bolsonaro sair na frente, mas, infelizmente, não fui atendido. O Doria atendeu na frente. O Estado de São Paulo está priorizando os policiais. Pelo plano nacional de vacinação, ficamos atrás dos presos, o que é algo até meio vexatório para a classe. Demonstra desprestígio. / B.P. 

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