Presidente licenciado da Eletronuclear preso pela Polícia Federal é referência em círculo científico

Presidente licenciado da Eletronuclear preso pela Polícia Federal é referência em círculo científico

Othon Luiz Pinheiro da Silva, acusado de ter recebido R$ 4,5 mihões de empreiteiras investigadas na Lava Jato, é engenheiro naval com especialização em energia nuclear no MIT e já ganhou reconhecimento por mérito da Presidência da República

ANDRÉ BORGES E TALITA FERNANDES, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2015 | 12h45

BRASÍLIA - O presidente llicenciado da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, preso nesta terça-feira, 28, pela Polícia Federal, por ter sido acusado de recebimento de R$ 4,5 milhões de empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato, é tido como uma referência na comunidade científica por estudos sobre o uso de combustíveis nuclear.

Engenheiro naval pela Escola Politécnica de São Paulo, formado em 1966, Othon é autor de um projeto de criação de centrífugas usadas no enriquecimento de urânio para propulsão nuclear em submarinos.

Em 1994, chegou a receber do então presidente da República Itamar Franco a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, por conta de suas colaborações à ciência e à tecnologia.

Othon se especializou em engenharia nuclear no Massachussetts Institute of Technology (MIT), em 1978. Foi diretor de pesquisas de reatores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) entre 1982 e 1984, além de fundador e responsável pelo Programa de Desenvolvimento do Ciclo do Combustível Nuclear e da Propulsão Nuclear para Submarinos entre 1979 e 1994. Atuou ainda como diretor da Coordenadoria de Projetos Especiais da Marinha (Copesp), atual Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), de 1986 a 1994.

Na Marinha, Othon chegou ao posto de vice-almirante. Ele estava no comando da Eletronuclear desde 2005, até que se licenciou do cargo em abril deste ano, a partir de apurações de denúncias envolvendo contratos firmados na construção da usina de Angra 3.

Paralelamente à presidência da Eletronuclear, Othon era dono da empresa Aratec Engenharia. Sua empresa é investigada por ter recebido “pagamentos vultuosos”  de outras companhias que compõem o consórcio que atua nas obras de Angra 3, o consórcio Angramon. Os pagamentos, que teriam sido feitos pelas empreiteiras Andrade Gutierrez e Engevix, ambas com contratos com a Eletronuclear, ocorreriam por meio de empresas intermediárias: CG Consultoria, JNobre Engenharia, Link Projetos e Participações Ltda., e a Deutschebras Comercial e Engenharia Ltda., “algumas com características de serem de fachada”, segundo a PF.

O despacho que autorizou a prisão temporária de Othon, assinado pelo juiz Sérgio Moro, informa que “embora os pagamentos das empreiteiras à Aratec possam eventualmente ter causa lícita, pela prestação de serviços reais de assessoria ou consultoria ou por eventuais direitos de patentes, pelo menos considerando as conhecidas qualificações técnicas de Othon Luiz, há aqui um possível conflito de interesses que coloca em suspeita esses pagamentos”.

No mesmo documento, Moro ponderou que “não passa sem atenção o fato de Othon Luiz ser militar da reserva”.

“Apesar do prestígio das Forças Armadas, o fato é que as provas indicam possíveis crimes de corrupção em tempo muito posterior a passagem dele para reserva e no exercício de atividade meramente civil. Então a investigação não tem qualquer relação com atividade militar, não sendo os fatos em apuração crimes militares nos termos do art. 9º do Código Penal Militar.”

Reportagem publicada pelo Estado no último domingo, 26, revelou que a construção de Angra 3 já custou R$ 1 bilhão aos cofres públicos, sem nunca ter entregue energia.O valor total da obra, antes estimado em R$ 9,6 bilhões, já ultrapassa R$ 16 bilhões.

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