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Divulgação/UNE
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Presidente eleita da UNE quer novos ‘caras-pintadas’, mas admite perda de projeção no Congresso

Primeira mulher negra a comandar entidade e primeira titular da região Norte, Bruna Brelaz diz que prioridade do movimento estudantil é mobilização pelo impeachment e revisão da Lei de Cotas

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2021 | 09h41

A octogenária União Nacional dos Estudantes (UNE), principal entidade de representação dos universitários desde 1939, elegeu uma nova presidente no último domingo, 18, com a pretensão de retomar o protagonismo perdido nas últimas décadas. A amazonense Bruna Brelaz, de 26 anos, é a oitava mulher eleita para liderar a entidade, mas a primeira negra e da Região Norte.

Estudante de Direito, Bruna assumiu o cargo enquanto a UNE participa da organização das manifestações que pedem o impeachment do presidente Jair Bolsonaro – e a uma semana do próximo ato, marcado para sábado, 24. Ela diz que a nova diretoria pretende gerar um movimento comparável aos caras-pintadas – que, em 1992, destacaram-se nos protestos cobrando o afastamento de Fernando Collor da Presidência –, mas reconhece entraves que a entidade enfrenta na tentativa de influenciar a política nacional e eleger suas lideranças no Legislativo.

“Fica como um desafio o fato de que nesse último período nós não conseguimos adentrar no Parlamento”, ela disse ao Estadão. “A ambição dos estudantes que lideram a UNE é ser os novos ‘caras-pintadas’. Nós queremos derrubar o Bolsonaro. Para nós, o projeto dele não condiz com a perspectiva que temos sobre educação e sobre o Brasil.”

Bruna substitui Iago Montalvão, estudante de Economia da Universidade de São Paulo (USP), para um mandato de um ano com a possibilidade de renovação por mais um. Ela diz que uma das prioridades de sua gestão será a mobilização para manter as regras atuais da Lei de Cotas, que no próximo ano deve passar por uma revisão no Congresso.

A mobilização de jovens e estudantes tem sido parte importante dos movimentos de rua nos últimos anos, mas não necessariamente com protagonismo da UNE. Como você vê a atuação da entidade nos próximos anos diante disso?

Acho que a UNE voltou a cumprir um papel central na oposição, principalmente ao governo Bolsonaro. Foi a UNE que liderou o ‘tsunami da educação’ bem no início da gestão Bolsonaro, quando o então ministro Abraham Weintraub anunciou o corte de 30% das verbas discricionárias das universidades. Houve uma intensa mobilização nas assembleias estudantis, nas salas de aulas, até chegar o grande momento das mobilizações de rua, liderados pela UNE. Nós construímos essa referência de oposição.

A ambição dos estudantes que lideram a UNE é ser os novos ‘caras pintadas’. Nós queremos derrubar o Bolsonaro. Para nós, o projeto dele não condiz com a perspectiva que temos sobre educação e sobre o Brasil. Chegamos nesse limite de não aguentar mais todas as atrocidades que Bolsonaro, na nossa opinião, faz com a educação, com os brasileiros. Ele não ataca só a educação, e, sim, a dignidade da vida das pessoas quando nega vacina, espalha fake news. Temos essa expectativa de voltar, de liderar nesse próximo período ainda mais as ruas. E que essa geração, com essa nova composição social na universidade – que não é mais só branca, que tem negros, mulheres e indígenas – lidere essa frente da derrubada de Bolsonaro para que, assim, a gente consiga apresentar um projeto de educação.

Entre os 14 deputados federais com menos de 30 anos na Câmara dos Deputados, no entanto, nenhum veio do movimento estudantil. Por que isso está ocorrendo?

Acho que existe uma leva de jovens que se organizam em outros setores e conseguem se projetar a partir disso. O movimento estudantil vai precisar se desafiar a colocar suas lideranças também nesse espaço que é o Parlamento. Temos lideranças como a Tabata (Amaral, PDT-SP) e tantas outras que não se organizavam pelo movimento estudantil e sim por outras frentes e conseguiram se projetar. Isso é um desafio no qual a gente precisa se questionar e passar a apresentar isso para os estudantes. O estudante precisa se colocar à disposição para ser (liderança), em primeiro lugar, e também eleger os seus a partir dos ideais que acredita, a partir de uma bandeira de luta que ele vê em outra pessoa. Fica como um desafio o fato de que, nesse último período, nós não conseguimos adentrar no Parlamento, para que a gente passe a questionar os estudantes de forma propositiva. O que falta é engajar mais, fazer muito mais discussões nesse aspecto, envolver e ganhar mais os estudantes para o debate político que nós já fazemos.

Os movimentos de renovação política que surgiram nos últimos anos parecem atrair mais jovens e têm tido sucesso em eleger novos nomes. Como você vê esses movimentos? Eles são concorrentes do movimento estudantil na formação política?

Não são concorrentes. Eles cumprem o seu papel enquanto movimento de outro campo. Fazem outro tipo de articulação e de captura de lideranças, é diferente do movimento estudantil. Cada um constrói seu movimento, todos eles de forma legítima, concordando ou discordando com o que significa cada projeto. Isso faz parte da democracia. Só que a UNE fará 84 anos em agosto, e segue como uma entidade de referência na educação, e percebemos no dia a dia esse reconhecimento entre figuras da política e no setor educacional. Isso faz com que a UNE continue na efervescência das mobilizações pela educação.

Você acha que a relação da UNE com partidos políticos afasta uma parcela dos estudantes?

Essa questão partidária é algo muito individual. Acho que isso não assusta porque, afinal, no Congresso da UNE se mobilizam 10 mil estudantes de todo o Brasil. E nem todos são filiados a partidos políticos. Todos vão conscientemente sabendo que existem movimentos e articulações que se constroem a partir dos partidos. Isso precisa se naturalizar. As lideranças desses movimentos apartidários se filiam a partidos políticos quando se projetam para o Parlamento. Para nós é muito natural esse debate. O que pode existir dentro da UNE é alguém não concordar com a opinião política de alguém que é filiado a partido, e todo debate se constrói dentro desse processo democrático. É também um papel da UNE não demonizar os partidos, que são importantes para a democracia brasileira – todos eles, de direita ou de esquerda. Eles contribuem para o debate interno da UNE, Nesse último congresso tivemos uma participação muito maciça de uma corrente liberal, (estudantes) que participaram ativamente e deram suas opiniões de maneira democrática.

Você é a primeira pessoa da região Norte a presidir a UNE, em mais de 80 anos de história. Por que demorou tanto para isso ocorrer?

Acredito que isso demorou a acontecer exatamente porque o Brasil enfrenta uma dificuldade em posicionar a região Norte como um espaço também a ser ouvido pelos brasileiros. As pessoas que moram na região Norte podem também ser 'megafone' das lutas do nosso País. Esse é um anseio muito importante e muito presente, principalmente no momento em que a Amazônia, a biodiversidade e os povos que vivem dela, são atacados de forma sistêmica. Esse momento demorou justamente pela dificuldade do reconhecimento do Brasil no sentido de ouvir mais os povos que moram na Amazônia brasileira, de dar mais espaço para que essas pessoas também ocupem lugares de poder.

De qualquer forma, hoje você estuda na Faculdade Autônoma de Direito, em São Paulo. Você acha que seria eleita para a presidência da UNE se não estivesse aqui?

Não tenho dúvida de que haveria uma certa dificuldade se eu estivesse somente atuando em Manaus. Por causa da centralidade que se dá em cidades com São Paulo e Rio de Janeiro, cidades que estão no polo de mobilização de pessoas, percebo que se consegue ter mais destaque, mais visibilidade em lugares que têm populações maiores.

Essa questão de termos menor projeção de lideranças no Norte não é um fator isolado. Tivemos, por exemplo, um presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), que é o Yann (Evanovick), que se destacou nas manifestações na sua cidade e virou presidente da Ubes. Mas é muito mais difícil para quem vem do Norte, como eu, conseguir ter essa projeção.

Os maiores desafios da sua gestão vão ser no campo da disputa política ou na política estudantil?

Os maiores desafios da UNE se entrelaçam em dois aspectos. O primeiro deles é a UNE ser um dos polos de uma frente ampla que possa derrotar Bolsonaro. O segundo, que se equipara com o primeiro, é a construção do debate da educação na centralidade do País. Queremos e reivindicamos para que todos os políticos que queiram disputar as eleições em 2022 ouçam os estudantes, o que temos para apresentar como projeto para a educação. 

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