GARY GRANJA|REUTERS
GARY GRANJA|REUTERS

Presidente do Peru pede a embaixador informações sobre citação na Lava Jato

Ollanta Humala demonstrou contrariedade ao embaixador do Brasil em Lima, Marcos Raposo Lopes, devido a ligação feita pela Polícia Federal de seu nome à Odebrecht, principal construtora estrangeira no país

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE

23 Fevereiro 2016 | 19h55

BUENOS AIRES - Ao saber por meios locais que a Polícia Federal o liga ao empresário Marcelo Odebrecht e a uma doação de R$ 4,8 milhões, o presidente peruano, Ollanta Humala, chamou na noite de segunda-feira, 22, o embaixador do Brasil em Lima, Marcos Raposo Lopes. Conforme funcionários da missão diplomática brasileira disseram ao Estado, Humala mostrou em meia hora na sede presidencial seu descontentamento e pediu acesso aos documentos em que era citado. Nesta terça-feira, 23, o Itamaraty trabalhava com o Ministério da Justiça para atender a solicitação do líder peruano, que ocupou a manchete dos principais jornais do país a dois meses da eleição que definirá seu sucessor. Um segundo turno pode ocorrer em julho e ele não pode concorrer.

Na embaixada brasileira, o tom da conversa não foi interpretado como de ameaça ou cobrança, mas nota publicada pela secretaria de imprensa peruana usou o termo "convocação" para o chamado ao embaixador, o que no meio diplomático representa descontentamento. A íntegra da declaração peruana, publicada no site da presidência: "Em razão das informações supostamente provenientes da Polícia Federal do Brasil, surgidas à noite em um programa de TV daquele país, e reproduzidas por alguns meios locais no Peru, o embaixador do Brasil, o senhor Marcos Raposo Lopes, foi convocado ao Palácio do Governo pelo senhor presidente da República, Ollanta Humala Tasso, com a presença do presidente do Conselho de Ministros, Pedro Cateriano, e a ministra das Relações Exteriores, Ana María Sánchez, para expressar sua contrariedade a tais afirmações e solicitar informação oficial sobre o assunto".

Planilha apreendida por investigadores durante a 23ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Acarajé, na qual foi preso o jornalista e marqueteiro João Santana, menciona o "Projeto OH", possível referência ao presidente peruano, ao lado da cifra de R$ 4,8 milhões. Não há detalhes sobre a finalidade do dinheiro. "A se confirmar esta hipótese investigativa, o então dirigente máximo do Peru teria sido beneficiado pelo Grupo Odebrecht e isto, de alguma forma, estaria atrelado aos investimentos feitos pelo governo federal naquele país", diz relatório assinado pelo delegado Filipe Pace. 

A empresa é a principal construtora estrangeira do país. A ligação entre Humala e Odebrecht foi mencionada por meios locais em eleições anteriores, sem comprovação de ilegalidade. O papéis indicam inúmeros encontros entre o presidente da empresa e do país. Entre as diversas obras da empresa no Peru, estão a hidrelétrica de Chaglla, estradas e irrigação. De 1998 e 2014, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) emprestou cerca de R$ 1 bilhão para obras concretizadas pela Odebrecht.  

 

 

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