Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Presidente do Instituto Lula diz que foi procurado por 'várias' empresas

Sócio do ex-presidente afirma que executivos de empreiteiras investigadas pela Lava Jato queriam falar sobre impactos da operação

Entrevista com

Paulo Okamotto

Andreza Matais, O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2015 | 02h03

BRASÍLIA - Sócio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa consultoria e presidente do instituto que leva o nome do petista, Paulo Okamotto confirmou ao Estado que recebeu "vários" interlocutores de empreiteiras.

O senhor recebeu o executivo João Santana, da UTC, para tratar da Operação Lava Jato?

Eu o recebi. Ele queria explicar as dificuldades que as empresas estavam enfrentando, se alguém estava pensando o que fazer. Eu disse: 'Você tem que procurar alguém do governo'.

Que tipo de ajuda ele queria?

Toda empresa que fica exposta a acusações tem dificuldades de ser atendida. Ele estava sentindo que as portas estavam fechadas no governo, nos bancos.

Por que ele procurou o senhor, que não tem cargo no governo?

As pessoas acham que a gente tem informação.

O senhor recebeu a OAS?

Esse negócio das empreiteiras está todo mundo procurando para ver como é que faz. Fica chato eu ficar dizendo todas as empresas que me procuraram.

A Odebrecht procurou o Lula?

Eu não participei dessa conversa da Odebrecht com o presidente Lula. Ninguém pode ignorar que um caso como esse não tenha sido comentado. Infelizmente, todo mundo só fala nisso.

O assunto não é relevante?

Muita coisa que está aparecendo não tem muito a ver com a política, embora se queira dar esse caráter. No caso da Lava Jato, tem a ver com as mazelas do País. Para vencer as dificuldades que a gente tem muitas vezes nas empresas, como questões burocráticas, as pessoas usam de expedientes mais condenáveis.

Mas o PT recebeu dinheiro do esquema.

Tanto o (Renato) Duque, quanto o (Paulo Roberto) Costa eram de carreira da Petrobrás, indicação técnica, pela meritocracia. O Pedro Barusco era gerente. As pessoas não foram galgadas ao posto com o compromisso de roubar. Até poderiam oferecer pra eles cargo nessas condições, mas eles poderiam dizer: 'Nessas condições eu não topo. Eu tenho 30 anos de Petrobrás, não vou roubar para virar diretor'.

O João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, foi acusado de pedir propina para o partido.

As empresas estão ganhando dinheiro. Ninguém precisa corromper ninguém. Funciona assim: 'Você está ganhando dinheiro? Estou. Você pode dar um pouquinho do seu lucro para o PT? Posso, não posso.' É o que espero que ele tenha feito.

O desvio na Petrobrás chegou a bilhões.

Foi uma surpresa saber que essas empresas davam um tanto de dinheiro pra tantos caras. Por que tem que dar esse tanto de dinheiro? Não tem outro esquema, não tem outra estrutura?

O Brasil muda com a Lava Jato?

Quando a pessoa critica duramente a corrupção, a obriga a ser mais ética. No Brasil, infelizmente, é assim. Todo mundo corrompe um pouquinho. Nego atravessa pelo acostamento; nego fala no telefone celular; dá um dinheirinho ali para o guarda. A gente tem uma cultura de comprar facilidade, que é ruim. Se não, que País vamos deixar para os nossos netos?

O presidente Lula está muito preocupado com a Lava Jato?

Eu falei que iria responder a uma pergunta, já respondi 20. Chega. Passar bem.

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