Presidente defende candidato da coalizão

No Congresso Nacional do PT, Lula deixa aberta possibilidade de legenda apoiar nome que não seja o de um petista para sua sucessão, em 2010

Vera Rosa e Wilson Tosta, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

Em um recado às tendências internas que pregam que o PT decida que obrigatoriamente terá candidato próprio à sucessão presidencial em 2010, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem, em seu discurso no 3º Congresso Nacional da legenda, que a candidatura seja da coalizão que o apóia - e, embora não o dissesse, não necessariamente a de um petista.Lula deixou aberta, assim, a possibilidade de a legenda apoiar candidato presidencial que seja de fora do partido, mas, ao mesmo tempo, não descartou a hipótese de ser um petista o postulante da coligação, o que ficaria para ser decidido mais adiante. O presidente falou da sucessão após longo elogio ao seu governo, afirmando que é necessário que suas iniciativas tenham continuidade.''''Queridas companheiras e companheiros, já foi dito que esses oito anos de nosso governo, nossos dois governos, não podem ser um intervalo progressista entre governos conservadores'''', afirmou. ''''Disse e reafirmo que passarei a faixa presidencial ao meu sucessor no dia 1º de janeiro de 2011. Lutarei, no entanto, para que o futuro presidente seja alguém identificado com nosso projeto, capaz de dar continuidade e profundidade à obra que iniciamos'''', continuou. ''''O PT e seus aliados têm nomes, mas sobretudo idéias, para ter uma candidatura própria.'''' A declaração de Lula foi dada no trecho lido do discurso.O presidente afirmou ainda que, para chegar com força às eleições municipais de 2008 e às eleições gerais de 2010, o PT terá que aprofundar seu debate político, reformar as relações com movimentos sociais e apoiar ''''de modo cada vez mais criativo'''' o governo. ''''Quando tiverem de fazer críticas, sejam manerados (moderados)'''', pediu, provocando risos na platéia de delegados e convidados, no Centro de Exposições Imigrantes. ''''Para isso, será importante que o PT se renove, como soube fazer ao longo de toda a sua história, que seja um líder, que não sacrifique suas idéias gerais e seu projeto coletivo aos interesses de grupos.'''' Também pediu que a democracia interna petista não seja ''''pretexto para uma luta permanente'''' que fragilize o partido e se torne incompreensível para a sociedade.DEBATEDepois do discurso, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, concordou com Lula. ''''O presidente falou aquilo que eu tenho dito sistematicamente: o PT tem vocação para ter candidato, é natural que tenha candidato, mas não pode ser arrogante nem presunçoso na relação com outros partidos'''', declarou. ''''Deve produzir alternativas para discutir com a base do governo quando chegar a hora. E a hora não é agora'''', alertou Berzoini. ''''Se chegar forte a 2010, tem todas as condições de ter candidato próprio.''''Para o ministro da Justiça, Tarso Genro, Lula disse que o partido deve considerar a possibilidade de ter candidato próprio, mas deve conversar sobre a proposta com seus aliados e apresentar candidatos viáveis. ''''Agora, ninguém defende que o PT tenha a exclusividade da verdade, nem a exclusividade da candidatura. Isso tem que ser negociado com os aliados'''', argumentou o ministro. ''''Eu defendo que o PT tenha um candidato, apresente para os seus aliados e discuta com eles a melhor possibilidade. Inclusive, pode aparecer fora do PT um melhor candidato. O PT tem que considerar essa possibilidade, sim.''''O secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, seguiu raciocínio semelhante ao de Berzoini. ''''Qualquer que seja a decisão tomada agora, não tem conseqüências práticas'''', declarou. ''''O PSB lançou Ciro Gomes, é perfeitamente natural.'''' Segundo ele, é provável que socialistas e peemedebistas decidam ter candidato em 2010. ''''É um ótimo sinal de vitalidade dos partidos da coalizão.''''Na véspera, o dirigente Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, defendeu que o PT tenha candidato em 2010. Ele lembrou que a próxima eleição presidencial trará situação nova, pois, pela primeira vez desde 1989, Lula não concorrerá. ''''O PT obrigatoriamente terá que ter candidato'''', afirmou. ''''Obrigatoriamente. Um partido com a força do PT, com a importância do PT, vai ter candidato, como tivemos. Essa pergunta - O PT terá candidato?- não foi feita em 89, 94, 98, 2002 e 2006. Por que está sendo feita agora?''''Na prática, o primeiro teste para medir grau de unidade entre os parceiros da coalizão serão as disputas municipais de 2008. ''''Não vamos dar moleza para Ciro Gomes'''', avisa o deputado Jilmar Tatto, um dos vice-presidentes do PT.O ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB), é outro que causa ciúmes. Nas rodas petistas, é tratado como a ''''noiva'''' da Esplanada. A hostilidade começou em repúdio à diminuição da cota petista no governo, já que, ao assumir a tarefa de resolver a crise área, Jobim desbancou Waldir Pires (PT). ''''Todos reconhecemos a importância de manter a unidade, mas o PT precisa ter cara própria no governo'''', diz Tatto.RUSGASA questão sobre o candidato a presidente do PT, ou que venha a ser apoiado pelo partido, não é o único motivo de insatisfação. Os problemas passam ainda pela perda de cargos no governo e pelos rumos da política monetária.Até hoje setores da sigla não se conformam com a manutenção de Henrique Meirelles no comando do Banco Central. ''''É um erro brutal'''', diz Pomar.Cotado para a corrida ao Planalto, o governador da Bahia, Jaques Wagner, admite o desgaste no relacionamento entre o presidente e seu partido, mas considera esse estágio natural no jogo do poder. ''''Lula e o PT são indissociáveis, mas têm tarefas e missões que, em determinados momentos, são diferentes'''', argumenta. ''''Se não houver compreensão, podem se chocar e, por isso, o PT precisa entender a importância da coalizão.''''A opinião é compartilhada pelo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), da tendência Movimento PT. ''''Quando falamos numa candidatura em 2010, isso não significa que vamos impor um nome. Significa que vamos respeitar a coalizão, mas também que temos consciência.''''Amigo de Lula e integrante do antigo Campo Majoritário, o presidente do PT paulista, Paulo Frateschi, afirma que a direção da legenda precisa se reestruturar para ter condições de ''''diálogo especial'''' com o governo. ''''Não podemos aceitar recados nem intermediários e muito menos jogar água no moinho dos adversários.''''

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