Presidente de Conselho vê Jaqueline como 'ré confessa' e promete apuração

‘Não estamos na Câmara para passar a mão na cabeça das pessoas que têm desvio de conduta’, afirma José Carlos Araújo, que preside órgão da Casa encarregado de investigar parlamentares

Leandro Cólon e Eduardo Bresciani, de O Estado de S. Paulo

17 de março de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - Sob pressão externa, o Conselho de Ética da Câmara quer mostrar resultados e deve dificultar a vida da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), flagrada, num vídeo revelado pelo Estado, recebendo dinheiro de Durval Barbosa, pivô do escândalo do "mensalão do DEM", que seria fruto do esquema de corrupção do Distrito Federal. Em entrevista nessa quinta-feira, 17, ao Estado, o presidente do órgão que julga a conduta de parlamentares, José Carlos Araújo (PR-BA), mandou um recado a Jaqueline: "Não estamos na Câmara para passar a mão na cabeça das pessoas que têm desvio de conduta".

 

"Ela é ré confessa porque confessou que recebeu dinheiro e que foi para campanha, caixa 2. Dinheiro ilícito", disse Araújo. Os integrantes do Conselho de Ética avaliam que as circunstâncias políticas, que incluem o começo de legislatura e um histórico negativo em julgamentos de mandatos, aumentam as cobranças para punir Jaqueline. "Acho que o caso dela servirá para resgatar a imagem da Câmara. Vou trabalhar com esse propósito. Não vou aceitar que isso não aconteça", afirmou.

 

Para o parlamentar, a entrevista de Durval Barbosa ao Estado, em que ele afirmou que o dinheiro entregue à deputada é "sujo" e "oriundo de propinas", reforça a necessidade de ouvi-lo em depoimento e abre a possibilidade uma acareação entre os dois. "A repercussão que esse caso tomou é muito grande em função dos antecedentes", disse.

 

Relator. Araújo prometeu indicar na terça-feira o relator do processo contra Jaqueline Roriz. Já é quase consenso que os integrantes do conselho derrubarão a interpretação de que ela não pode ser processada, já que o vídeo foi gravado em 2006, antes de ser deputada federal. Havia sido formado um entendimento no conselho, na época do escândalo do mensalão do PT (2005), que parlamentares não poderiam ser processados por atos ocorridos antes da posse.

 

A promessa, agora, é acelerar a investigação contra a parlamentar. "O Conselho de Ética não vai abrir mão de investigar. Temos muita esperança que acabe logo essa coisa que só ajuda a denegrir a imagem do parlamentar", afirmou José Carlos Araújo.

 

Integrante do Conselho de Ética e cotado para relatar o processo, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) considera imprescindível ouvir Durval Barbosa após as declarações dadas ao Estado, as primeiras sobre o conteúdo do vídeo em que ele entrega R$ 50 mil a Jaqueline Roriz e seu marido, Manoel Neto.

 

"A declaração dele sobre a origem do dinheiro trata-se de mais um fato grave trazido à luz e que deve servir de embasamento para análise que o relator vai fazer no processo", disse Sampaio.

 

Um sintoma de que a situação de Jaqueline é frágil é que até o deputado Abelardo Camarinha (PSB-SP), réu em quatro ações no Supremo Tribunal Federal, além de estar sob investigação em outros seis inquéritos, deu declarações de que, sendo membro do Conselho de Ética, não está disposto a aliviar na investigação contra a deputada, filha do ex-governador Joaquim Roriz.

 

Diante da entrevista de Durval Barbosa ao Estado, o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR) considera o depoimento do delator ainda mais importante para as investigações. "Ele tem de vir e falar tudo o que sabe para que possamos fazer uma faxina no Congresso. Agora, se ele não vier, nós vamos oficiar ao procurador-geral da República um pedido para que retire dele a condição da delação premiada", disse. O deputado Sílvio Costa (PTB-PE) é a favor de que Durval seja o primeiro a ser ouvido logo que for instaurado o processo e escolhido um relator.

 

"A primeira providência tem de ser a de convidar o Durval. Não tem como não chamar. Ela (Jaqueline) diz que é caixa 2, e ele diz que é dinheiro sujo. Então, temos de colocar essa questão no conselho", disse.

 

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