Wilton Junior/Estadão
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Presidente da Petrobrás afirma que ela e toda diretoria devem ser investigadas

Graça Foster defende auditorias internas, admite que pôs cargo à disposição e diz que foi vítima de ‘retaliação’ de ex-gerente que alega tê-la alertado sobre irregularidades; para ela, ‘não há segurança’ para apresentar no balanço o impacto financeiro da

Fernanda Nunes e Antonio Pita, O Estado de S. Paulo - texto atualizado às 08h53 do dia 18/12/2014

17 de dezembro de 2014 | 12h28


RIO - A presidente da Petrobrás, Graça Foster, disse ontem que ela e a diretoria da estatal precisam ser investigadas por auditorias internas em razão dos desdobramentos da Operação Lava Jato. 

Graça admitiu ter colocado o seu cargo à disposição da presidente da República, Dilma Rousseff, e disse “não ter receio da verdade”. “Eu preciso ser investigada. Os diretores, nós precisamos ser investigados”, afirmou a executiva em café da manhã com a imprensa, no Rio. 

Foi a primeira aparição pública de Graça após reportagem do jornal Valor Econômico afirmar que a funcionária e ex-gerente executiva da Diretoria de Abastecimento da estatal Venina Velosa da Fonseca advertiu a atual diretoria sobre irregularidades em contratos da estatal ainda em 2009, anos antes de a Polícia Federal deflagrar a operação que apura crimes como corrupção e lavagem de dinheiro, pagamento de propinas e a atuação de um cartel de empreitas em contratos da estatal. 

Graça atribuiu as declarações de Venina a uma “retaliação” da funcionária por ter sido afastada do cargo de chefia no escritório de Cingapura da Petrobrás.

Demissão.A presidente da Petrobrás disse que já colocou o cargo à disposição da presidente Dilma Rousseff “uma, duas, três, quatro vezes”. Ela se negou, no entanto, a revelar a reação de Dilma. “Só posso dizer que toda diretoria continua aqui”, complementou, apontando para o grupo de diretores que a acompanhava no encontro com jornalistas. Toda a diretoria estava presente, com exceção de José Eduardo Dutra, responsável pela área corporativa e de serviços, que presidiu a estatal no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva. “Hoje estou aqui presidente da Petrobrás enquanto eu contar com a confiança da Presidência, e ela entender que eu deva ficar”, afirmou Graça Foster. 

Auditorias.Graça defendeu que ela e outros diretores sejam investigados pelas auditorias internas ao mencionar por que decidiu entregar os cargos à presidente Dilma Rousseff. “Nós deveremos ter uma sinalização positiva de que a diretoria está em condições, do ponto de vista de suas práticas de governança, de assinar o balanço. Para isso, precisamos dessas auditorias internas. Eu preciso ser investigada, eu e os diretores precisamos ser investigados”, afirmou. “Nós temos uma investigação interna que é muito importante para a Petrobrás, que investiga prioritariamente a presidente e os diretores, e na sequência os gerentes executivos. Ela pode levar um, dois, três anos (...).” 

Segundo Graça, a Operação Lava Jato trouxe para o cotidiano da companhia “outras palavras”, como “ lavagem de dinheiro, organização criminosa, crime de corrupção, peculato”. “Tivemos que aprender a viver dessa forma, com tantas palavras tão incomuns na nossa vida. E tudo ficava na expectativa de que podia não ser verdade. Mas no dia 8 de outubro, com o acesso ao depoimento do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, veio a confirmação dessas palavras que a gente queria negar.” 

Venina. Graça Foster atribuiu as declarações da ex-gerente Venina Velosa, de que ela já tinha sido avisada da corrupção na empresa, a uma “retaliação” da funcionária por ter sido afastada do cargo de chefia no escritório de Cingapura. Ela disse ter sido avisada de que a funcionária iria procurar a imprensa e que não foi pega de surpresa quando as declarações de Venina vieram a público. Mas fez questão de ressaltar também o laço de intimidade entre Venina e Paulo Roberto Costa, réu em processos da Lava Jato que firmou acordo de delação premiada para confessar crimes na estatal em troca de redução da pena. Graça disse que, em algum momento e por motivo desconhecido, os dois se desentenderam. 

Os primeiros e-mails de Venina a Graça ocorreram na época em que a atual presidente da Petrobrás era diretora de Gás e Energia, em 2009. “Em 2009, Venina teve uma briga com o Paulo Roberto. Não sei o porquê. Quando ela conversou comigo sobre a área de comunicação, foi a primeira vez que soube que eles tinham se desentendido. E eu falei com o Paulo Roberto: ‘Você e Venina precisam conversar’”, afirmou. “Eu era diretora e o (José Sergio) Gabrielli, presidente. Como presidente da Petrobrás, depois, ela mandou e-mail e eu enviei para o jurídico, para que fossem feitas as ações cabíveis. Nós, diretores, sabemos o que vai para a reunião de diretoria. Não tenho como saber a outra parte.”

Balanço.A presidente da Petrobrás admitiu o desapontamento com o fato de a empresa ainda não ter seu balanço financeiro do terceiro trimestre deste ano auditado e divulgado ao mercado financeiro - algo inédito na companhia em 61 anos, segundo ela. “Pela primeira vez não tivemos um balanço auditado, por conta de denúncias e insinuações”, disse. Para Graça, só com as informações mais completas das investigações a companhia poderá apresentar o impacto financeiro da corrupção na empresa. “Não há segurança de que em 45 dias, 90 dias, 365 dias, 700 dias, virão todas essas informações na sua plenitude.” A executiva ainda disse estar “ansiosa” para receber a delação premiada do ex-gerente executivo de Serviços Pedro Barusco, mas questionou se ela será “completa”. “Cada delação que vem é uma história que se revela, um passo que se dá para o fim de tudo isso.” 

Empreiteiras.Graça Foster destacou que empreiteiras investigadas pela Polícia Federal na Operação Lava Jato, como OAS, Odebrecht e Camargo Corrêa, têm participações nos estaleiros responsáveis pela construção das plataformas e navios da Petrobrás. “É urgente que o governo se posicione para resolver os impactos da Operação Lava Jato no que se refere às empresas. Nós precisamos delas ou de licitações internacionais para atingir a curva de produção. Uma vez evidenciada uma série de fraudes e corrupção, a gente não pode contratá-las, essa é a grande ameaça à curva de produção.”

Ex-diretores.Graça disse também que o fato de o Conselho de Administração da Petrobrás ter aprovado o afastamento dos ex-diretores Paulo Roberto Costa (Abastecimento) e Renato Duque (Serviços) após ela assumir, em fevereiro de 2012, a presidência da empresa, não é uma evidência de que já tinha conhecimento de que os dois executivos lideravam um esquema de corrupção. Argumentou que o seu estilo de trabalho é incompatível com os dos dois ex-diretores e disse apenas que “sabia o que incomodava” no “estilo de gestão” dos ex-colegas de empresa. 

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