Presidenciáveis de centro se aliam às vésperas da Páscoa, mas falta programa para sair da crise

Enquanto isso, Bolsonaro se movimenta para arregimentar apoios a seu projeto de reeleição

Vera Rosa , O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 11h20

Caro leitor,

O manifesto em defesa da democracia lançado por seis possíveis candidatos à Presidência, nesta quarta-feira, 31, mostra a tentativa de criar um novo centro, com a moldura de terceira via, para furar a polarização política. Desde que a pista da esquerda ficou congestionada com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva como principal adversário do presidente Jair Bolsonaro, o meio de campo parece desnorteado. Diante de tantas crises, porém, os desafiantes resolveram se aliar às vésperas da Páscoa. Mas ainda falta um programa que una essas forças, além das palavras de ordem.

Antes mais identificado com a esquerda, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), um dos signatários do “Manifesto pela Consciência Democrática”, se posiciona no jogo de 2022 para construir sua imagem como candidato de centro. Sob o argumento de que, para derrotar Bolsonaro, é preciso unir todos os democratas do País, sem se importar se são “de Marte, de Vênus ou de Mercúrio”, Ciro procura apoio para sua quarta candidatura ao Palácio do Planalto. Em 2018, ele chegou até a buscar uma aliança com o Centrão, mas o bloco acabou fechando com o tucano Geraldo Alckmin.

O PDT de Ciro, hoje, está muito próximo do DEM de Luiz Henrique Mandetta e mantém um namoro que pode até virar casamento de papel passado. Os dois partidos já são aliados na Prefeitura de Salvador e tentam alinhavar acordo para uma aliança nacional. Nos bastidores, há apostas de que Mandetta, ex-ministro da Saúde e idealizador do manifesto, se lançou como candidato, mas pode ser vice. Criticado vira e mexe por Bolsonaro, Mandetta aparece em pesquisas qualitativas, que medem a impressão do eleitor, como o ministro que tentou impedir a tragédia na qual chegamos, com mais de 320 mil vidas ceifadas pelo coronavírus.

Divulgada no dia em que o golpe militar completou 57 anos, a carta assinada pelos pré-candidatos diz que, três décadas depois da promulgação da Constituição de 1988, “a democracia brasileira” está ameaçada. Alerta, ainda, que “o autoritarismo pode emergir das sombras”. Não foram citados explicitamente ali os movimentos de Bolsonaro para derrubar comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, além do ministro da Defesa –  que não aceitaram politizar as Forças Armadas –, nem o vaivém de declarações do presidente sobre estado de sítio. Todas essas articulações que remetem a tempos de triste memória, no entanto, perpassaram o documento.

O apresentador Luciano Huck, outro signatário do manifesto, disse a seus interlocutores políticos que aproveitará a Páscoa para refletir se deve ou não concorrer ao Planalto, em 2022. Por enquanto, parece mais propenso a continuar na TV. Huck ainda não se filiou a nenhum partido, mas já esteve próximo de entrar no DEM, no  Cidadania, no PSD e no PSB. Abriu diálogo com várias siglas nesse campo, incluindo aí o MDB.

Nas fileiras do PSDB, os governadores João Doria (São Paulo) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) também deixaram suas assinaturas no documento. Os dois prometem disputar uma prévia para a escolha do candidato tucano à sucessão de Bolsonaro. Com o agravamento da pandemia de covid-19, porém, a rejeição de Doria aumentou. A cúpula do DEM havia prometido trocar alianças com ele em 2022, mas está a um passo de desfazer o compromisso.

Se depender do deputado Aécio Neves (MG), que se reabilitou no PSDB e hoje dá as cartas no partido, os tucanos não devem nem ter candidato próprio à Presidência. No comando da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Aécio reassumiu o protagonismo após ser acusado de receber R$ 2 milhões em propina do empresário Joesley Batista, da J&S. Na avaliação do tucano que por pouco não chegou ao Planalto em 2014, a hora é de investir no aumento da bancada federal, que foi praticamente dizimada nas últimas eleições, e não de insistir em uma candidatura sem viabilidade.

Desgastado após ser visto como parcial pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento que condenou o ex-presidente Lula no caso do triplex do Guarujá, o ex-ministro Sergio Moro não quis autografar o manifesto. Alegou que agora dá consultoria privada e não pode se envolver nesses assuntos. João Amoêdo (Novo), por sua vez, tem o nome na carta e planeja entrar no páreo de 2022, mas enfrenta resistências na própria legenda.

Enquanto isso, Bolsonaro promove trocas ministeriais fazendo cálculos de acomodação partidária para pôr de pé o projeto da reeleição e muda às pressas os comandantes das Forças Armadas em busca de alinhamento político. Apesar de ter perdido popularidade e entrado em choque com militares, empresários, mercado e defensores da Lava Jato, o presidente redirecionou o discurso da pandemia para consolidar eleitores nas redes sociais. Além disso, conta com a volta do auxílio emergencial para sair do isolamento e recuperar votos. Em outra frente, “fideliza” apoio no Congresso à base do toma lá, dá cá.

Não foi à toa que ele chamou para o governo, recentemente, representantes do PSD, do Republicanos e do PL. Além de esperar que o Centrão o proteja do impeachment e defenda seus filhos políticos, Bolsonaro quer aumentar o tempo de propaganda eleitoral na TV para 2022, com o respaldo dessas siglas.

O presidente está sem partido, mas negocia o retorno ao PSL, embora essa possibilidade seja alvo de críticas de filiados, que fizeram até abaixo-assinado contra sua volta. Eleito pelo PSL, Bolsonaro se desfiliou no fim de 2019, após ruidosa briga pelo controle do partido. Tentou erguer o  “Aliança pelo Brasil”, mas fracassou na empreitada.

Uma parceria de centro para enfrentar Bolsonaro de um lado e o PT, de outro, provavelmente com Lula – que teve as condenações impostas pela Lava Jato anuladas pelo Supremo –, ainda é vista com desconfiança no Congresso.

“O grande problema é que até hoje ninguém se dispôs a construir um programa de centro moderado para o País”, disse o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM). “Quando houver esse programa, nós teremos  condições de apontar um caminho fora da polarização”.

Para o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), antes de tudo é preciso um acordo político para vencer a grave crise enfrentada no País, com a pandemia fora de controle e o desemprego em alta. “Vejo com muita preocupação a ausência de iniciativas para tornar o centro coeso”, afirmou Jardim. “Os partidos estão voltados para o próprio umbigo e nenhum deles se apresenta com disposição para fazer esse papel”.

Dizem em Brasília que, quando a política não resolve, a crise se aprofunda e engole a política. Em um governo de “colisão”, como o de Bolsonaro, a próxima vítima do choque pode ser ele mesmo. Ou não.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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