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Eliane Cantanhêde
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Presidência com temperança

Caçula de oito filhos numa família libanesa, Michel Temer jamais esqueceu o dia em que, aos 7 anos e meio, foi levado pela mão do irmão mais velho, Adib, à Igreja Matriz Tietê, em São Paulo. Enquanto Adib rezava, o pequeno se distraía com os vitrais coloridos, cada um dedicado a uma virtude. Adorou a palavra “temperança”. De volta à casa, correu ao dicionário com o irmão e descobriu que temperança significa equilíbrio, moderação.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

17 Abril 2016 | 23h36

“Sempre tive a sensação de que aquilo pautou a minha vida. Não gosto de briga, sou avesso a ideias radicais, tento sempre resolver as coisas conversando, negociando”, diz ele, diante da perspectiva de assumir a Presidência por dois anos e nove meses após o afastamento de Dilma Rousseff.

Em sua longa carreira política, que inclui a presidência do PMDB, três vezes a presidência da Câmara e a Vice-Presidência da República, o professor de Direito constitucional Michel Temer realmente construiu a imagem de um homem comedido, que fala pouco, mede palavras, jamais grita ou usa palavrões.

Como registrado neste espaço em 22 de julho de 2015, já considerando a hipótese de impeachment de Dilma: “nele (Temer), nada falta, nada transborda; nem omisso nem verborrágico; nem covarde nem valentão; nem gênio nem ignorante; nem tão anti-PT nem tão anti-PSDB; um pouco Lula, um pouco Fernando Henrique”.

Temer, portanto, tem perfil para o momento, mas isso não é tudo. Depois de um doloroso processo de impeachment, em meio a uma conjunção cruel de crises, o que mais preocupa é o entorno dele, explorado duramente ontem pelos líderes anti-impeachment. Com especial contundência do petista Afonso Florence, eles questionaram a legitimidade e as chances de êxito de um governo que terá na linha de frente o deputado Eduardo Cunha e uma profusão de suspeitos da Lava Jato (que, aliás, estavam com Dilma).

Logo, o grande trunfo de Temer é também o seu principal problema: praticamente todos os partidos aliados a Dilma descambaram na tese do impeachment, levando junto gregos, troianos e velhas práticas nada republicanas. Ele terá uma base aliada imensa - tão imensa quanto gulosa. Se usar os ministérios como Saúde, Fazenda e Justiça para saciar os aliados, não terá vida longa.

Seus articuladores juram que Temer sabe disso e acrescentam: aos 75 anos, passando por onde passou e chegando aonde chegou, ele tem que concentrar sua energia e suas armas para conclamar um pacto nacional, extrapolar o PMDB e resistir o quanto possível a concessões à sua base e a pressões populistas - e sem agredir os inegáveis ganhos sociais do início da era PT. Seu horizonte não pode ser 2018, tem de ser a história.

Formalmente, a ascensão de Temer ainda depende do acatamento do pedido de impeachment e depois do julgamento do mérito no Senado. Na prática, ninguém em Brasília acredita que, após a derrota de ontem, haja mínimas condições de Dilma voltar ao poder. Mas, se ela é “carta fora do baralho”, Temer ainda enfrenta a ameaça do TSE para se manter no jogo.

Por tudo isso, Michel Temer tem pressa. Pressa para articular um pacto nacional que reúna as forças políticas, patrões, empregados e um voto de confiança de uma sociedade que está muito desconfiada. Nada disso é fácil, mas ele terá de usar toda a “temperança” aprendida nos vitrais da Igreja do Tietê, porque não tem alternativa: é acertar ou acertar. E rápido!

A nova oposição. Se os aliados de Collor fugiram covardemente na hora “h”, a tropa anti-impeachment de Dilma foi guerreira, corajosa. A “base aliada” artificial escorreu pelo ralo, mas a base real foi fiel até o fim. Dilma sai, mas essa base fica, no PT ou não, e mantém o discurso e o papel de contraponto, pressão e cobrança, fundamental para o equilíbrio do jogo. E sem apostar todas as fichas em Lula.

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