Preocupada com canaviais, Anistia fará estudo sobre setor

A Anistia Internacional pretenderealizar um estudo específico para identificar eventuais abusoscometidos na indústria canavieira do Brasil, após divulgar seurelatório anual sobre direitos humanos em que aponta desdeviolações básicas até situações extremas, nas palavras dopesquisador da entidade para o país, Tim Cahill. "Nós estivemos duas semanas atrás no interior de São Pauloe no interior de Mato Grosso do Sul começando uma pesquisa maisprofunda sobre o impacto da indústria nos direitos humanos eessa é uma área que a Anistia vai ter interesse de seguir",disse Cahill à Reuters por telefone. Cahill cita entre as violações casos de intimidações asindicalistas e exemplos de trabalhadores que ganhavam de 7 a15 reais diários para cortar 20 toneladas de cana por dia. O pesquisador da Anistia criticou a falta de punições maisseveras às empresas que violam os direitos humanos dostrabalhadores e afirmou que muitas das multas impostas sequersão pagas. "As punições que estão sendo feitas contra as companhiasque violam acabam sendo muitas vezes simbólicas", disse. "Nóssabemos que existe uma legislação esperando no Congresso que dáàs autoridades o poder de confiscar as terras onde o trabalhoescravo é utilizado. Nós acreditamos que isso seria um passoimportantíssimo." Cahill reconheceu que há autoridades se movimentando paracombater o problema, e citou esforços para monitorar a situaçãoprincipalmente em São Paulo. "Mas claramente os recursos sãolimitados, os espaços são enormes e o número de companhiastrabalhando nessa área está crescendo de uma forma alarmante." A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), querepresenta as usinas do centro-sul do país, informou quepoderia divulgar mais tarde comentários sobre o relatório. O etanol tem sido um dos expoentes da política externa dopresidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem defendido emforos internacionais a ampliação do uso de biocombustível feitode cana-de-açúcar como uma das formas de amenizar os efeitos doaquecimento global. O produto, no entanto, tem recebido críticas no exteriorsob o argumento de que a expansão do seu uso a nível globalcolabora para a alta nos preços dos alimentos e para o aumentodo desmatamento no Brasil, porque o crescimento no Sudeste eCentro-Oeste empurraria operações de gado e de grãos mais parao norte. Mas Cahill nega que a Anistia pretenda fazer uma campanhacontra o etanol brasileiro caso as autoridades do país serecusem a combater o problema. "Nós não acreditamos que essa seja a maneira de trabalhar,não acreditamos nesse tipo de campanha", disse. "Nós queremos que o Brasil reconheça que esse momento deexpansão econômica é importante, é um momento em que ele temque reavaliar seu posicionamento, como é que se quer fazer essaexpansão econômica e se realmente quer construir essa novaeconomia nas costas das violações aos direitos humanos?" ALERTA SOBRE O PAC O relatório da Anistia também faz ressalvas ao Programa deAceleração do Crescimento (PAC), principal aposta do governoLula. A preocupação do órgão, segundo seu pesquisador para oBrasil, é com o impacto da construção de estradas e represas emcomunidades indígenas. "Nós reconhecemos que o PAC tem vários elementos. Tem o PACda segurança, o PAC indígena. Criticar todo o PAC como um todoseria muito forte", ponderou. "Nós estamos pressionando para que se garanta essas terrasindígenas antes que se façam esses projetos", acrescentou. O relatório reiterou ainda as críticas à violênciapolicial, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, alémdas más condições da população carcerária do país.

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