Prefeito de Paraty decreta estado de emergência

Três meses depois de escapar por um voto das acusações de improbidade administrativa e crime de responsabilidade, o prefeito de Paraty, José Cláudio Araújo (PMDB), decretou na semana passada estado de emergência no Município, ?devido aos constantes alagamentos e conseqüentes prejuízos ao patrimônio?.O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada para apurar denúncias de superfaturamento em obras da prefeitura, Marco Antônio de Paula Silva (PSB), afirma porém que a medida seria uma manobra para realizar obras sem licitação na cidade, candidata ao título da Unesco de Patrimônio da Humanidade.Os vereadores rejeitaram por seis votos a cinco o relatório final da CPI, que acusava o prefeito de cometer ?ato de improbidade administrativa e crime de responsabilidade? ? a eventual aprovação do relatório poderia resultar na abertura de comissão processante na Câmara de Vereadores.Araújo classifica as acusações de ?pura politicagem?. ?Não é oposição política, é raiva e ódio por parte de um grupo de cinco pessoas que quer me humilhar, achincalhar e esculachar, talvez por discriminação?, afirma o prefeito, que é assumidamente homossexual. ?Esse vereador (Silva) só fala que eu quero transformar Paraty em pólo gay. São falsos moralistas, mas não tenho mágoa. Só lamento eles não estarem ao lado da população. Eu sou tudo o que eles gostariam de ser e não conseguem.?Para o relator da CPI, a decretação de estado de emergência é uma ?fraude?. ?Esse negócio é uma grande fraude para a quadrilha que ele (Araújo) montou poder roubar mais os cofres públicos?, afirmou Silva. Segundo ele, as acusações reunidas pela CPI serão encaminhadas ao Ministério Público e já foram reunidas 2 mil assinaturas para mover uma ação popular contra o prefeito.?Essas 2 mil pessoas são inimigas de Paraty, gente que nunca fez nada pela cidade. Existe o risco de um governo bom emancipar a população, e eles estão preocupados, porque se eu ficar o resto do meu mandato, não vai sobrar nada para eles continuarem se elegendo com a miséria do povo, com a distribuição de canos e areia?, diz Araújo.Nascido em Paraty, professor de história e dono de uma pousada na cidade, ele já havia concorrido à prefeitura em 1982, sem sucesso. Eleito com 41% dos votos há um ano e nove meses, se destaca pela informalidade ? ?ando descalço e de cueca pelas ruas do centro histórico? ? e costuma tomar decisões sem consultar órgãos fiscalizadores, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).Obras de drenagem da baía de Paraty e a construção de uma nova sede administrativa da prefeitura na Santa Casa, por exemplo, foram embargadas. ?Não posso ficar parado e esperando o destino de Goiás Velho para a minha cidade enquanto o Iphan, o Ibama e o Ministério Público decidem. A situação é grave e o projeto de limpeza de rios e canais não é meu, é de 1972?, alega o prefeito.O diretor do escritório do Iphan em Paraty, Júlio César Dantas, diz que a construção da sede administrativa foi embargada porque ?começou a ser feita sem aprovação e não atendia à legislação de proteção do patrimônio histórico?. Ele não acredita que a cidade esteja em risco. ?Realmente há um assoreamento da baía, mas não é essa coisa toda. A entrada da maré é um fenômeno que ocorre há séculos em Paraty.?O prefeito de defende: ?Ele (Dantas) entende muito de arte sacra. Mas quando os bairros alagam depois da chuva, o povo reclama é comigo?. Araújo teme que a suspeita de irregularidades no Município atrapalhe o processo de candidatura da cidade ao título da Unesco.Entre as acusações levantadas pela CPI, documentos mostram a contratação de supostas ongs ?sem fins lucrativos? e institutos para obras públicas sem licitação ? entre eles o Instituto Ambiental Costa Verde, que tinha sede no sítio do então secretário municipal de Meio Ambiente ? e a compra de 312 sacos de cimento e 368 varas de vergalhão para a construção de uma fossa de 50 tijolos na Escola Municipal Mangueira.Em relação à denúncias, o prefeito disse que contrataria até a própria mãe, desde que ela fosse competente para a função, e eximiu a prefeitura de culpa pelo superfaturamento na compra de material de construção, afirmando que a administração de verbas da escola foi repassada para o conselho de pais e mestres, do qual o vereador faz parte.?O temor do senhor é o príncipe da sabedoria. Se querem me cassar, devem fazer logo. Se eu for, é porque mereço ser envergonhado. Estou trabalhando. Plantei palmeiras imperiais no centro histórico e fiz 79 obras. Prefiro ser julgado pelo que estou fazendo do que por omissão. Estou nas mãos de Deus?, disse o prefeito.

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