Preconceito racial resiste nas empresas

Discriminação contra os negros nas contratações, promoções e nos programas de treinamento interno ainda são comuns nas empresas brasileiras. É essa a avaliação de consultores e especialistas em questões raciais ouvidos pelo Estado, apesar da crescente preocupação em se adotarem políticas inclusivas."A alta direção não convive com a idéia da discriminação e acredita que o problema é com os negros", diz a diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), Maria Aparecida da Silva Bento. "Quando se mostra um estudo provando que a empresa investe em treinamento ou que faz promoções de maneira diferenciada, eles ficam perplexos."Especialista em recursos humanos, Maria Aparecida tem se dedicado nos últimos anos a ajudar empresas a desenvolver programas corporativos sobre diversidade. "Acompanho funcionários negros e brancos com a mesma formação e com o mesmo tempo no emprego, e os brancos são sempre privilegiados em programas no exterior, em cursos de inglês e em financiamentos de MBAs."Ao contrário do que já ocorre com portadores de deficiências, não há legislação no Brasil que determine que empresas devam ter em seus quadros um determinado porcentual de funcionários negros.O decreto federal 3.298 de 1999, determinou que de 2% a 5% dos funcionários das empresas devem ser deficientes. O Ministério do Trabalho e Emprego informa que em São Paulo empresas têm cumprido parcialmente a decisão.A discussão sobre cotas começou a ganhar corpo no fim dos anos 90. No ano passado, uma pesquisa do Instituto Ethos de Responsabilidade Social mostrou que, em 94% das empresas ouvidas, as diretorias eram ocupadas por brancos."O diálogo ainda está em fase de sensibilização", diz Sueli Carneiro, da Organização Não-Governamental Geledés - Instituto de Mulheres Negras. Segundo ela, as empresas costumam alegar que, quando se dispõem a contratar negros, esbarram na dificuldade de não encontrar profissionais com o perfil desejado."Elas deveriam então criar uma política voltada para estagiários negros que oferecesse a eles a perspectiva de galgar cargos na empresa."Entre as empresas que já adotam políticas claras em favor dos negros, está a Kodak. Há três anos, a empresa passou a considerar a cor da pele como critério de desempate entre candidatos - priorizando profissionais negros. "No começo, houve comentários do tipo ?ah, eu sou branco e não tenho chance nessa empresa? ", diz a diretora recursos humanos, Patrícia Belo.Na fábrica da Ford em Camaçari, região metropolitana de Salvador, não foi estabelecida cota mínima para empregar negros, mas 70% dos cerca de 4,5 mil funcionários são negros ou mulatos. O critério que contou para a contratação, na verdade, foi a proximidade da moradia do empregado. "Nossos funcionários têm um desempenho espetacular", atesta o presidente da Ford do Brasil, Afonso Maciel Neto.

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