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'Precisamos usar oportunidade de relação com EUA agora, quando ela está aí', diz Forster

Confirmado por Bolsonaro como futuro embaixador nos EUA defende que Brasil “não deixe para depois” aproximação com americanos

Beatriz Bulla, correspondente

05 de novembro de 2019 | 16h06

WASHINGTON - Atual chefe da embaixada brasileira em Washington, o diplomata Nestor Forster defendeu na manhã desta terça-feira, 5, que o Brasil aproveite a “oportunidade extraordinária” de relação com os Estados Unidos gerada pela “sinergia muito boa” entre os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro. “É uma oportunidade extraordinária, que não podemos guardar para depois, não podemos deixar para outro dia. Temos que usá-la e temos que usá-la agora, quando ela está aí”, defendeu Forster, ao participar de evento sobre comércio internacional, na American University, na primeira fala pública desde que ele foi confirmado por Bolsonaro como futuro embaixador do Brasil nos EUA.

Desde o início do governo, Bolsonaro deixa clara a admiração que tem por Trump. Em troca, o americano tem demonstrado apoio público ao presidente brasileiro. A menos de um ano das eleições presidenciais dos EUA, no entanto, parte do governo do Brasil reconhece nos bastidores que a boa relação costurada entre os dois países pode sofrer um abalo caso o republicano não termine sua campanha de reeleição vitorioso.

No seu discurso, Forster não mencionou as eleições americanas, mas clamou pela “transformação” sem demora da sinergia entre os presidentes em atos concretos, citando a negociação de um acordo comercial entre os dois países.

Forster já está, na prática, no comando da embaixada brasileira em Washington desde junho, mas durante os últimos meses o governo tentou viabilizar a indicação do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, para o posto. Com a resistência do senadores à nomeação de Eduardo e a crise interna do PSL, Bolsonaro confirmou no último dia 23 que o indicado seria Forster. Ele ainda precisa passar pela sabatina e votação do Senado.

“Sobre a relação com os EUA, a mensagem é: é uma oportunidade extraordinária, temos uma tarefa extraordinária na nossa frente, o meu time na embaixada, nos ministérios das Relações Exteriores e da Economia e a burocracia federal em Brasília, mas também no setor privado, todos que estão envolvidos nisso. Temos que transformar em resultados concretos essa ótima sinergia entre os dois chefes de Estado”, afirmou o atual encarregado de negócios da embaixada do Brasil na capital americana.

Em gesto considerado pouco usual na diplomacia brasileira, Bolsonaro declarou, mais de uma vez, lado na disputa presidencial dos EUA e disse apoiar a candidatura de Trump. Do lado dos pré-candidatos democratas, parte dos nomes que lideram as pesquisas de opinião é considerada do espectro progressista do partido, crítico ao governo Bolsonaro. É o caso da senadora e pré-candidata Elizabeth Warren. Bernie Sanders, outro pré-candidato democrata que desponta nas pesquisas, chegou a escrever após a eleição de Bolsonaro que o presidente do Brasil é “um líder autoritário de extrema-direita que elogiou a ditadura militar”.

Forster afirmou em sua apresentação que é perda de tempo falar em um “alinhamento automático” entre os governos Trump e Bolsonaro. “Quando se fala em alinhamento automático, o que se está deixando passar? A extrema complexidade da agenda externa do Brasil e dos EUA, está perdendo os princípios profundos que unem os dois países, as duas maiores democracias do hemisfério ocidental: defesa da democracia, Estado de direito, liberdade de expressão, liberdade de religião. É claro que precisamos de pessoas reais para liderar esse trabalho e temos os dois chefes de Estado que tem uma relação formidável”, disse.

Desde a visita de Bolsonaro à Casa Branca, em março, o Brasil viu frustradas algumas das expectativas que teve sobre o governo americano. É o caso do apoio ao pleito do governo brasileiro de entrada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os EUA, apesar de reiterarem o apoio, não se comprometeram com um cronograma do acesso do País como membro do grupo. Na semana passada, os americanos também pediram informações adicionais ao Brasil para reabrir o mercado dos EUA para importação de carne bovina in natura. Um levantamento produzido pela Amcham (Câmara Americana de Comércio) em setembro e obtido pelo Estado aponta que apenas dois de 13 compromissos firmados há seis meses foram concretizados. Os demais estão em curso.

Acordo comercial

Brasil e EUA vêm tentando negociar um acordo comercial entre os dois países. Em um primeiro momento, a discussão não abarca a negociação sobre tarifas, o que exigiria um debate junto com o Mercosul. Neste momento, o foco da negociação são questões regulatórias e de facilitação de comércio.

Os americanos têm mostrado nas reuniões que estão sobrecarregados com outras demandas - como a negociação de um acordo com a China, com quem Trump travou uma queda de braço desde que chegou à Casa Branca. Ao falar sobre negociação do possível acordo comercial, Forster afirmou que há “grande interesse” dos dois lados e que Brasil está “pronto para negociar”.

O encarregado de negócios da embaixada nos EUA disse que não se espera que a negociação leve 20 anos, como o caso do acordo União Europeia - Mercosul. “Vai levar menos do que isso”, afirmou. Segundo ele, os países têm trabalhado em pré-negociações que eliminem os obstáculos e abram caminho para chegar a um acordo mais rápido.

Forster defendeu que o setor de agronegócio, que tradicionalmente vê a relação com os EUA como uma competição, passe a discutir a possibilidade de abrir novos mercados com a boa relação entre os países. “Por muito tempo tivemos essa lógica da competição. Isso vai continuar e será parte, claro, de um acordo comercial. Mas também é tempo, e já tem acontecido em alguma extensão, de ser criativo e pensar fora da caixa, explorar jeitos que esses setores possam trabalhar juntos para abrir mercados em terceiros países, para estabelecer padrões para a agricultura”, afirmou.

Críticas e Foro de São Paulo

Forster fez críticas à condução de políticas externa e econômica de governos anteriores ao de Bolsonaro. Amigo do escritor Olavo de Carvalho e considerado um conservador, Forster criticou o que chamou de “industrialiazação da corrupção” nos governos prévios ao de Bolsonaro. “A corrupção também se tornou uma commodity de exportação para outros países da América Latina”, disse Forster, afirmando que isso aconteceu “especialmente” nos países parte do Foro de São Paulo.

O diplomata também falou que “aparentemente foi exaurido o livro das mágicas e truques de heterodoxia econômica” e que o Mercosul se desvirtuou nos últimos anos e se tornou “uma desculpa” para não promover abertura comercial.

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